O caminhão. Todo ele ocupando todo o campo de visão à minha frente. Um ímpeto. A freada. Uma sigla vem à mente: ABS. Não fosse ele, muito provavelmente não haveria texto essa semana.
Não haveria mais Sub-versão. E eu quase pude sentir a ferragem pesada penetrando meus tecidos, o corpo projetado à frente, a dor causada no peito pela pressão do cinto de segurança, meus ossos se partindo com a força do impacto. Não, não ia sobrar nada da frente do carro.
Segundos. Segundos e tudo poderia ter tido um desfecho diferente. Mas é justamente aí que Ele habita, nos décimos de segundos que separam o corredor vitorioso do segundo lugar, na miudeza de tempo que separa o amor da indiferença, na linha tênue que afasta a lâmina cortante da faca do dedo dedicado da cozinheira.
Deus habita é no limite, no limiar da dúvida, no palco do improvável. Nas improbabilidades todas, é lá que Ele habita. E eu não sei dizer o porquê dessas suas escolhas. Aliás, será mesmo que são escolhas suas? Receio que não. Mas é fato que todo encontro com Ele é sempre assustador, um misto de encanto e dor.
Naquele dia, no entanto, não senti dor, nem me vi tomada por qualquer tipo de encanto. Devia estar tão entregue à dureza do cotidiano, que tinha meus sentidos adormecidos para a beleza, que só viria a enxergá-la depois, um pouco depois.
Xinguei em voz alta o motorista do caminhão e continuei na estrada, cansada da estrada, da vida e de gente como o motorista do caminhão. Tomada pelo cansaço, que é às vezes existir, nem sequer me lembrei de agradecer.
Só fui fazê-lo depois, naquele semáforo vermelho, atrasando ainda mais, eu pensava, minha chegada em casa, porque foi ali que Ele melhor se me apresentou. Muito mais nitidamente, muito mais claro e forte e indiscutivelmente vivo, que quando do meu “quase” acidente.
E como era bonito! Assustadoramente, bonito! Verde, grande, corpulento, o grilo pousado no pára-brisa do meu carro só poderia ser um arauto dEle. Criatura a serviço de seu criador, de uma beleza grave e intensa como a própria vida.
Permaneceu assim, pousado um bom tempo, mesmo depois do sinal aberto, quando podia e devia alçar a liberdade, que é não se prender a nada, nem com toda a movimentação do carro se moveu. Permanecemos um tempo juntos, separados apenas pela grossura do vidro, que apesar de um obstáculo físico, nos colocava quase íntimos devido à leveza da transparência.
Ainda quando parada no sinal, pude ter tempo inclusive para, esticando a mão até a bolsa, pegar o celular e tirar-lhe uma foto. É, às vezes, Ele se permite fotografar, afeito que anda às novas tecnologias.
Fechei o vidro por completo, senti medo que a criatura entrasse. Já podia até sentir-lhe o peso batendo contra mim e para minha aflição.
E sabem, é isso, a gente gosta dEle, mas na maioria das vezes, apenas através da vidraça, da vidraça opaca e suja da religiosidade, mas quando Ele se apresenta assim, tal como é, belo, intenso, arrebatador, imerecido, tudo o que somos capazes de sentir é temor.
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