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Olhar Social

Onde está o amor?

Um dos grandes sucessos da banda americana Black Eyed Peas “Where is the love?” (Onde está o amor?) ganhou o mundo em 2003 como uma das canções mais tocadas.

À primeira vista poderia-se pensar que se trata de uma letra romântica, talvez algo em torno de um amor perdido, se não fossem as batidas precisas de uma melodia envolvente entoada por palavras fortes, que nos instigam a buscar mais sobre a música, em especial por estar escrita em outro idioma.

“O que está errado com o mundo, mãe?” questiona seu intérprete, o cantor e compositor will.i.am, que segue em busca de respostas, tendo por base tanto a realidade americana, quanto estendendo seu olhar para além dela!

Passadas quase duas décadas, permanecemos em busca de repostas, cujo questionamento está mais amplificado: onde está o amor, a gentileza, a tolerância, o respeito?

Se tomarmos por base a nossa realidade, será que a materialização de tanto ódio, desprezo pela vida que não lhe é próxima, e egocentrismo exacerbado são frutos do atual momento – tanto fomentado por quem ocupa a cadeira no executivo federal, quanto supostamente em razão do contexto vivenciado, no qual parece não se vislumbrar futuro, não haver sonhos, nem mesmo condições dignas de sobrevivência – ou será que sempre fomos assim, num país onde seu passado está mal resolvido, seus problemas estruturais não foram efetivamente enfrentados e onde se insiste em manter uma cultura de servidão, conservadora, racista e patriarcal?

País onde todos os dias “chora a nossa pátria mãe gentil; choram Marias e Clarisses”, como interpretou Elis Regina em 1979 e cantamos até hoje. Onde ainda “[...] se morre de velhice antes dos trinta, de emboscada antes dos vinte, de fome um pouco por dia”, relembrando o poema de João Cabral de Melo Neto, ainda mais em se tratando de pessoas negras, pobres e periféricas.

País cuja realidade parece uma distopia, em que “cidadãos de bem” desejam andar armados e se impor a todos contrários a si; onde parece que a barbárie foi banalizada; onde uns podem ir a motociatas como querem – sem capacetes, por exemplo – e outros morrem asfixiados no camburão de uma viatura da polícia rodoviária federal – como o criminoso caso que envolveu Genivaldo de Jesus Santos em maio deste ano, justamente por estar sem capacetes.

Seria talvez a certeza da impunidade, impregnada nas entranhas de um país, cujos sujeitos abastados e de grupos seletos contam com um olhar e trato privilegiado? São conscientes no que fazem, e cientes que a punição devida não os alcança. Não são loucos, como alguns dizem, são perversos, cruéis, sádicos.

País esse que parece estar com suas instituições descredibilizadas, justamente por não imprimir o mesmo trato a todos. Já cantavam os Engenheiros do Hawaii: “todos iguais, todos iguais, mas uns mais iguais”. Isso mesmo: uns mais iguais que outros! “Tão desiguais, tão desiguais”, canta a banda.

Enquanto reinar tamanha desigualdade – de renda, gênero, territorial, racial – o amor não será pleno. Amor como sinônimo de respeito, tolerância, gentileza. Amor ao próximo, à diferença e ao diferente, ao meio ambiente, amor à vida.

Amor que permita que pessoas vivam com dignidade; com trabalho protegido; com alimento na mesa; com acesso à saúde, educação, cultura, esporte e lazer. 

Seguimos na busca por respostas. Seguimos na busca pelo amor. Seguimos na construção de uma sociedade igualitária e justa, em que não haja privilégios para poucos e crueldade para muitos; em que prevaleçam relações de empatia, gentileza, tolerância e respeito.

Seguimos esperançando – como diria Paulo Freire – por dias melhores, acreditando que a tempestade vai passar...

Esperançando que é uma outra realidade é possível, muito distante do que estamos vivenciando, na qual lembraremos do nosso hoje como uma lição, que nunca mais irá se repetir.

 

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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