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SUB-VERSÃO

Os Carlos

A figura esdrúxula daquele menino franzino prendeu minha atenção por alguns instantes. Mal sabia eu que o encantamento se estenderia ainda por muito mais tempo do que a primeira aula no sexto ano, cujo ar fica sempre muito preenchido de advertências, regras e bons exemplos de conduta acadêmica.

Miúdo, magrinho, cabelo raspado rente à cabeça, dentes proeminentes e olhos grandes, olhos de olhar e ver o mundo, descobriria eu depois. O menino em questão destoava de alguma forma do restante da sala. Mas não é mesmo assim que são as almas mais interessantes?

Muito expressivo, atento a quase tudo, sensível a todas as coisas, o menino “diferente” era mesmo extraordinário, quase uma figura extra-terrena, quase ilusória, quase que uma fantasia de professora de Língua Portuguesa transmutada em carne, osso, lápis, caneta, avidez por conhecimento e muitos, muitos questionamentos.

E por que tenho enorme fascínio por mentes questionadoras, essa sua espécie de audácia me encanta, mesmo quando infundada, afinal, é preciso duvidar do mundo para suportá-lo.

Carlos, tal qual o Drummond oferece-me diariamente um respiro, um alívio para meus ombros tão cansados de suportar o mundo.

E como foi bonito presenciar o brilho de seus olhos, quando durante uma aula de introdução ao gênero Poesia, lemos “A incapacidade de ser verdadeiro”.

O menino Carlos reconheceu-se de certa forma no outro Carlos, o famoso autor do texto, pude perceber. É notório quando uma alma se permite o encantamento da poesia. Adoro reconhecer-me também em olhos que, ao verem pedra, não enxergam somente pedra. E se de fato há mesmo tantas delas no caminho, escolho andar de mãos dadas com meus dois Carlos favoritos.

Esse menino, que tem nome e alma de poeta, reagiu emocionado, quando em uma de minhas falas para sua turma, revelei ser Carlos Drummond de Andrade meu poeta favorito. Receio dentro de alguns anos ter essa minha predileção modificada...

Quantos Carlos mais há sentados nos enfadonhos bancos escolares por aí? Pergunta meu velho, mas sempre novo coração e de poeta e professora. Quantas surpresas ainda me reserva a sala de aula, esse ambiente tão maravilhosamente humano?

Ontem, recebi uma cartinha do Carlos. Vou guardá-la tal qual um manuscrito do poeta de Itabira. Carta de uma generosidade comovente! Talvez por que a liberdade poética lhe permita cometer certos exageros, talvez por que eu o tenha, mesmo que sem querer, contagiado por meu amor e por minha devoção às palavras.

O fato é que será uma experiência incrível acompanhar Carlos em seus primeiros promissores passos rumo à Poesia. Drummond estaria orgulhoso desse seu xará, tenho certeza.

De onde está, lá no silencioso Reino das Palavras, nos observa e sorri. O mesmo sorriso que sorrio, quando me deparo com “um caso de poesia” entre meus alunos.

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