Chega setembro e eles invadem as ruas, avenidas e os lugares mais inóspitos. E a gente se pergunta: Como é que pode? Quando foi que essas cores todas surgiram? Ainda ontem não estavam aí, e agora gratuitamente dão o ar da graça, assim, exuberantes, e sem sequer pedir licença invadem os locais mais improváveis, onde outrora parecia não haver espaço para qualquer manifestação de beleza, mesmo que efêmera.
Ou fomos nós, que aturdidos pela correria daquilo que chamamos vida, quando na verdade é o que consome nossa existência, nem sequer os notamos.
De onde é que surgem os ipês? Talvez cheguem de mãos dadas com a primavera, irmãos que são. Irmãos silenciosos e lindos! Daqueles que não fazem alarde, mas discretamente nos surpreendem com sua exuberante e singular beleza.
Como é que não os notamos? Sem suas flores, parecem mesmo passar despercebidos aos olhos mais destreinados. Mas quando carregados delas, torna-se praticamente impossível não dedicar-lhes um único olhar que seja. E esse único olhar apressado já é suficiente para lembrar-nos do Eterno.
O Eterno se faz visível na delicadeza quase rude das flores do ipê e na sua longa e paciente espera por elas.
Os ipês nos ensinam da espera necessária, do silêncio da espera e de como o Eterno trabalha durante o silêncio e a espera. E da beleza que pode e sempre desabrocha após longas esperas.
Confesso que tenho minha preferência. Amo os ipês roxos, aliás, sempre foi essa minha cor favorita. Mas os amarelos... Que contraste suas cores conseguem contra o azul doído do céu primaveril.
Lindo! Simplesmente lindo! Juntas, suas cores contrastantes pintam uma tela digna de Monet.
Juntos, nós aprendemos com os ipês sobre a beleza da vida que adormece em todos nós, encubada, à espera da primavera que a fará, por fim, desabrochar.
O Eterno é a própria primavera, nos recordando tudo o que somos e aquilo que devemos nos tornar, continuamente, num exercício sucessivo de muitas e necessárias primaveras.
Ele mora na fragilidade da flor do ipê, assim como em cada um dos olhos fatigados, que vez por outra se permitem seduzir por seu encanto.
A primavera nos anuncia, mais uma vez, o triunfo da beleza sobre a morte e o descaso com que tratamos a vida. Ela é a própria vida se manifestando em todas as suas cores e formas mais exuberantes. Ela é presságio daquilo que viveremos quando retornarmos à nossa essência primeira.
Ao olhar, ainda que apressadamente para um ipê, procure lembrar-se disso: O Eterno lhe saúda através dele.
Viva a primavera de todas as coisas!
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