Fotos: Shel Almeida
news-details
Cultura

Oswaldo de Camargo: raiz de um negro brasileiro

Em visita a Bragança Paulista, poeta que dá nome à Praça da Poesia fala da emoção de ser homenageado em vida 

Aos 85 anos, o poeta, escritor e jornalista Oswaldo de Camargo alcançou o privilégio de poucos: receber, em vida, de sua cidade natal, as devidas honrarias que sua trajetória lhe concedeu. Nascido em Bragança Paulista em 1936, o garoto que ficou órfão aos seis anos de idade e viveu até os dez no antigo Preventório se tornou um dos maiores expoentes da literatura negra no país. Demorou um tempo até que Bragança o descobrisse como um filho da terra, mas, depois de concretizada a descoberta, o reconhecimento veio rápido. 

Em 2016, o escritor entrou em contato com a Universidade São Francisco (USF) porque queria lançar o livro “Raiz de um Negro Brasileiro” na cidade. A publicação tem relevância histórica para Bragança, pois traz memórias do tempo em que o autor viveu aqui. A palestra, realizada em um dos colóquios organizados pelo Cdaph (Centro de Documentação e Apoio à Pesquisa em História da Educação), da USF, rendeu amizades e novas visitas ao município. 

Cinco anos se passaram e hoje ele dá nome à Praça da Poesia. O local está em fase de construção e leva o letreiro #CidadePoesia, nomenclatura pela qual Bragança é conhecida, além da Terra da Linguiça. 

Há, ainda, uma homenagem ao escritor na Biblioteca Municipal Dra. Adalzira Bittencourt, que se mudou, no começo do ano, para o Centro Cultural Teatro Carlos Gomes, e recebeu, na nova decoração, nomes de vários autores brasileiros em sua escada. 

Os degraus já estão se tornando um novo ponto turístico. Quem visita o espaço faz questão de sentar e tirar uma foto ao lado daqueles que ocupam as estantes. E a preferência é por estar ao lado de Oswaldo. 

No último dia 21, Oswaldo de Camargo esteve em Bragança na companhia do filho, Wadico Camargo, e conheceu os locais que fazem referência – e reverência – a seu nome. O Jornal Em Dia acompanhou a visita, ao lado da secretária de Cultura e Turismo, Vanessa Nogueira, e teve a oportunidade de presenciar a visita surpresa ao prédio do inativado Preventório Imaculada Conceição. Confira como foi. 

“BRAGANÇA É PARTE FUNDAMENTAL DA MINHA VIDA LITERÁRIA”

Quando Oswaldo soube da escada com o nome de grandes autores brasileiros – entre eles, o seu – quis agendar uma visita ao Centro Cultural. Em contato com a reportagem do Jornal Em Dia, pediu que fosse feita a solicitação à secretária de Cultura, que atendeu prontamente. Na ocasião, ao telefone, brincou: “Eu sou o único vivo ali”. Assim que chegou ao Centro Cultural, no último sábado, ficou parado alguns instantes em frente aos degraus, admirando. Sentou-se, ao lado do filho, para as fotos. Tiraram as máscaras por alguns instantes, para o registro à posteridade. 

“Foi uma surpresa quase beirando o espanto, quando cheguei à biblioteca do Centro Cultural e vi meu nome ali, ao lado de autores que se conhece a dimensão. Logo abaixo de Monteiro Lobato e perto de minha amiga Hilda Hilst. Eu não tenho essa projeção. Me emocionei muito ao perceber que minha cidade está me vendo com esses olhos. Também fiquei muito entusiasmado com o que vi, nunca imaginei receber uma recepção como essa. Mesmo com uma vida literária longa – eu comecei cedo, aos 19 anos –, foi uma das maiores emoções até aqui. Nunca achei que seria digno disso”, falou, à reportagem, em nova conversa telefônica. 

“Isso me deu uma outra perspectiva. É como se eu tivesse que prestar contas à Bragança, que me homenageia desta forma”. Na verdade, é a cidade que agora reconhece o que o trabalho de Oswaldo de Camargo fez por ela ao longo das décadas. Diversas obras do autor a têm como pano de fundo. “Bragança já está nas minhas novelas, disfarçada. É parte fundamental da minha vida literária como ficcionista. A paisagem da cidade sempre esteve presente nos meus livros. É de Bragança que vem o que escrevi. O Preventório tem muita importância na minha história. Eu devo tudo a Bragança”, reflete. 

"BRAGANÇA, EM PARTE, SE REDIME"

Depois de conhecer o Centro Cultural e dizer que “é a primeira vez que estou entrando aqui, eu conheço esse prédio desde criança, mas nunca tinha entrado”, se lembrando da criança pobre e negra que passava em frente ao prédio em que apenas a elite branca usufruía, e dedilhar o piano que fica no hall do espaço, (Oswaldo é organista), ele foi conhecer a Praça da Poesia. Ali, mencionou o fato de que, na infância, passava próximo daquela via, a pé e descalço, com o pai, a caminho da fazenda em que colhiam café. Se emocionou ao dizer que a homenagem a ele é, na verdade, uma homenagem a todos os pobres, sobretudo os pretos, que são apagados das memórias oficiais. Dali, foi até o Preventório. Essa parte da visita foi uma surpresa para ele, organizada pela Secretaria de Cultura, por sugestão da reportagem do Jornal Em Dia

“Estar ali me fez reavaliar muito do que recebi, em parte pela orfandade. O meu encaminhamento foi conduzido pela pobreza. Eu me construí com os caminhos que me levaram à pobreza. Foi muito emocionante estar na capela em que fiz minha 1ª Comunhão, no pátio em que brincava, olhar pela janela do quarto em que dormia. Foi também um resgate das minhas primeiras memórias intelectuais, porque foi ali onde recebi a cultura formal. Eu não chegaria até aqui se não fosse o Preventório. Ali, eu recebi a possibilidade de me afirmar com um tipo de cultura que eu desenvolvi pelas circunstâncias”, analisa. 

“Hoje, Bragança em parte se redime de seu passado escravagista ao homenagear um negro. Eu era um molequinho solto em Bragança, não existia, ninguém sabia de mim. E como eu digo em meu livro, ‘Raiz de um Negro Brasileiro’, para quê saber de mim? Eu era mais um pretinho filho de um apanhador de café e de uma lavadeira. É inesperado que o rumo que eu tomei em minha vida esteja sendo reconhecido”.

Você pode compartilhar essa notícia!

0 Comentários

Deixe um comentário


CAPTCHA Image
Reload Image