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Painel: O capitão infectado e o barco furado

No último dia 7 de julho, Jair Bolsonaro afirmou ter sido infectado pelo novo coronavírus.
Como se não bastasse toda a comunidade científica mundial já ter se manifestado de forma reiterada quanto à ineficácia da cloroquina, o presidente, no auge de sua sapiência ameboide, recomendou o uso da droga em sua live no último dia 9. 
Afirmou o presidente: “Por volta das 17h, tomei um comprimido de cloroquina. Recomendo que você faça a mesma coisa. Sempre orientado pelo médico. Amanhã tomarei mais um. Deixo bem claro para vocês, é um testemunho meu: eu tomei e deu muito certo, estou muito bem”. 
O presidente declara fazer uso do medicamento, o que não representa nenhum problema, pois se ele não se importa em fazer uso de um medicamento cuja eficácia não foi comprovada, é um direito dele. 
Por outro lado, na segunda parte de sua fala, Bolsonaro recomenda o uso do medicamento. Não satisfeito, teceu a seguinte comparação: “Sabemos que nenhum destes remédios tem comprovação científica. Mas é como na Guerra do Pacífico: o soldado chegava ferido, sangrando, precisando de uma transfusão e não tinha sangue. Começaram a injetar água de coco na veia do soldado que havia perdido muito sangue. E deu certo! Se tivessem esperado comprovação científica, quantos teriam morrido naquela época?”
Ora, se após inúmeras pesquisas e testes científicos realizados pelas mais renomadas universidades do mundo não se pôde evidenciar um só benefício da droga no combate ao novo coronavírus, como pode o presidente Bolsonaro, cujo quociente de inteligência deve estar entre 60 e 80, receitar o uso do medicamento? Trata-se, no mínimo, de uma insanidade controlada em prol da economia às custas de vidas humanas. 
A declaração é tão esdrúxula quanto a fala de Donald Trump sobre injetar desinfetante nos pacientes infectados pelo novo coronavírus. Na ocasião, houve relatos de pessoas em vários estados americanos que buscaram atendimento médico emergencial por terem seguido a recomendação do presidente. 
O que ambos os “Trumps”, o tropical brasileiro e o subtropical norte americano, conhecem muito bem é a reverberação de seus discursos em razão do cargo que ocupam. O povo ouve, infelizmente. 
No caso brasileiro, quando Bolsonaro mencionou a coloroquina como suposta salvadora de vidas, as farmácias foram esvaziadas e os pacientes que fazem uso do medicamento para doenças como a lúpus (cuja eficácia é comprovada para o medicamento) foram surpreendidas com a escassez do produto nas prateleiras.
Todo esse cenário é no mínimo espantoso. O presidente da República, por meses, expôs a própria saúde e a saúde de inúmeras pessoas ao participar das manifestações – a maioria antidemocrática, diga-se en passant. 
Isso porque, na maioria das manifestações, senão em todas elas, o presidente foi flagrado sem máscara de proteção, cujo uso é recomendado por todos os órgãos sanitários do mundo. Ou seja, a probabilidade de o presidente da República ter contaminado uma quantidade incontável de pessoas, direta e indiretamente, durante as manifestações, é enorme. 
E não é só. Ao passo em que adota tais posicionamentos, o presidente Bolsonaro vetou trechos da Lei 14.021/2020 que previa, em seu texto original, a obrigação do governo, entre outras, de fornecer aos povos indígenas acesso a água potável e distribuição gratuita de materiais de higiene, limpeza e de desinfecção para as aldeias, bem como executar ações para garantir aos povos indígenas e quilombolas a oferta emergencial de leitos hospitalares e de terapia intensiva e a compra de ventiladores e máquinas de oxigenação sanguínea.
Portanto, pode-se afirmar que o posicionamento do governo Bolsonaro, no que tange ao combate à pandemia de Covid-19, traduz-se em um total descaso com a saúde pública, de tal sorte que toda e qualquer manifestação oficial até o presente momento se opõe diametralmente às orientações da OMS (Organização Mundial da Saúde) e de toda a comunidade científica internacional. 
A falta de compromisso por parte do governo com as políticas públicas e o descaso com a saúde pública demonstradas por meio dos vetos e dos pronunciamentos que desafiam a ciência e a ética, aliados  ao mau comportamento do próprio presidente da República quanto ao cumprimento das regras mais comezinhas de prevenção de contágio, contribuem direta e indiretamente para o aumento progressivo de novos casos de infecção e, conse-quentemente, para a estagnação do número de mortes diárias em patamar elevado, que hoje permanece acima de 1.000. 
Enquanto o pico de contaminação em países da Europa durou entre oito e 15 dias, no Brasil, já se passou mais de 35 dias sem sinais de melhora. Muito pelo contrário, o cenário é desolador. 
O Brasil assemelha-se a um barco furado, onde as águas da pandemia inundam o convés de uma economia colapsada com mais de 12 milhões de desempregados, cujo capitão, ou seja, aquele que deveria tomar o timão e conduzir a embarcação em direção a águas mansas, está doente, infectado não só pela doença que até então desdenhava, mas também pela pior das enfermidades: a ignorância do autoritário. 

 

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