Diante da atual pandemia de coronavírus que se arrasta por meses, ouvimos os desabafos de nossos conhecidos, dos nossos amigos de trabalho, dos nossos colegas e familiares, a seguinte afirmação: “essa crise está acabando com o país”.
Certamente, a pandemia causou, além dos problemas no sistema de saúde, um agravamento da crise econômica. Sim, um agravamento, pois a crise econômica já existia antes da pandemia.
O Brasil contava com mais de 10 milhões de desempregados em meados de março. Contudo, o que parecia uma crise apenas de alguns, passou a ser uma crise de todos os brasileiros. Ou seja, deixou de ser a crise do trabalhador assalariado, do informal, do profissional liberal, e passou a ser a crise do microempreendedor, do dono do pequeno negócio, das empresas de médio porte.
Além disso, a crise escancarou ainda mais os problemas de ordem estrutural do país, fazendo com que aqueles que até então não se sentiam ou não entendiam como poderiam ser afetados pelo desemprego, se manifestassem.
Contudo, a maioria parece se manifestar conforme manda o aparelhamento ideológico neoliberal.
Um indivíduo qualquer no Brasil pode não ter emprego, mas tem celular, tem WhatsApp. Ou seja, o indivíduo passa por todos os problemas estruturais, perdendo o emprego, não tendo acesso à educação, à saúde ou mesmo ao saneamento básico, mas não perde o acesso diário ao conteúdo de informações massificadas nas quais lhe é dito que o governo, o presidente e seus ministros, estão lutando por ele.
O corpo que dói e a lágrima que cai não fazem com que o povo entenda que o problema é o capitalismo.
Quando o pobre (por pobre entenda-se como sendo aquele que não é detentor do capital) não se levanta, o modelo neoliberal e o modo de produção capitalista se tornam ainda mais ferozes e intensificam a exploração da classe trabalhadora.
Nesse cenário, o país vive uma situação trágica, na qual o presidente, revestido de legitimidade eleitoral, mas sem qualquer programa de política social, não encontra outra modulação de pensamento a não ser o neoliberal e assim navega sem bússola nas águas da crise.
E, justamente no momento em que a população poderia subir o tom e levantar-se contra as injustiças sociais, ela se cala e a oportunidade perfeita surge. Não para o povo, mas para o avanço do capitalismo, do acúmulo de capital.
É certo que toda crise interfere diretamente na vida cotidiana e, ainda mais, quando a crise representa a morte e o desemprego.
Em meio à crise econômica e sanitária, alentada pela letargia do povo alienado, as privatizações continuam. Privatizações absurdas como a da água, da Eletrobrás, entre outras.
O Brasil vive sob o comando de uma das mais ferozes plataformas neoliberais do mundo, onde não há espaço sequer para o chamado capitalismo de bem-estar social, menos selvagem e no qual há mecanismos e políticas públicas pró-sociedade para que haja o mínimo de equilíbrio social.
Nos EUA, por exemplo, seguindo o modelo neoliberal extremado, a saúde é totalmente privatizada e mesmo o Estado tendo fundos suficientes para arcar com um sistema de saúde pública, os pobres morrem sem atendimento.
Na política econômica atual, o futuro da saúde pública no Brasil está ameaçado.
No modelo instituído pelo ministro Paulo Guedes, não há uma só medida, um só pensamento que não seja totalmente direcionado pelo neoliberalismo extremado no qual o único objetivo é o acúmulo. Isso está representado e avalizado, inclusive, no próprio discurso do presidente Bolsonaro, que em meio à pandemia de coronavírus, concentra seus esforços para manter o plano econômico, mesmo que isso signifique a perda de milhares de vidas humanas.
O que temos é que nós, brasileiros, mesmo diante de uma pandemia que agravou a crise econômica e nos colocou de joelhos pedindo a Deus para que nos proteja, não aprendemos ou não enxergamos que a culpa é do sistema e não do indivíduo.
Entendo que o modelo neoliberal imposto pelo atual governo, incentivado pelo estado de alienação política causada pela deficiência no sistema educacional, aliado à ausência de políticas públicas sociais eficazes e ainda ao achatamento dos direitos trabalhistas, deve ser combatido por todos aqueles que guardam o mínimo de humanidade, desejo de progresso e de proteção da soberania popular.
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