Este grito explode na garganta ao sentir na pele o descompasso das estações do ano. Num passado, nem tão longínquo assim, já estaríamos nesta época do ano tirando o casado do armário e lembrando dos deliciosos quitutes que acompanham uma estação mais fresquinha!
Mas, longe disso, em pleno outono, seguimos suando em bicas, observando um sol estalado no horizonte, sem nenhum sinal de chuva ou um friozinho qualquer...
Isso mostra que a conta, da agressão desenfreada ao meio ambiente protagonizada pelo homem branco, chegou: temos uma crise climática em curso e muito pouco tempo para revertê-la. Um cenário apocalíptico se nada for feito!
Um verdadeiro desmoronamento, como escreveram Bruce Albert (antropólogo francês) e Davi Kopenawa (escritor, xamã e líder político yanomami) em “A queda do céu”, que tece uma espécie de diálogo amistoso entre dois amigos, onde Kopenawa compartilha a essência da cultura xamã, a relação dos indígenas com a floresta e as lutas travadas pela sobrevivência de seu povo, sua cultura e da própria natureza.
Nos dizem os versos da obra: “Estamos apreensivos, para além de nossa própria vida, com a da terra inteira, que corre risco de entrar em caos. Os brancos não temem, como nós, ser esmagados pela queda do céu. Mas um dia talvez tenham tanto medo disso quanto nós!”.
Kopenawa – uma das maiores lideranças indígenas do país, reconhecido internacionalmente por sua luta em defesa da Amazônia e seu ativismo pela demarcação de terras do povo yanomami – faz um relato profético e sensível; um verdadeiro alerta, que oferece ao homem branco a chance – talvez única – para rever seus valores, sua essência e sua relação com a própria natureza, antes que o céu desabe.
Em entrevista recente, Kopenawa disse: “Para mim, o termo mudança climática significa vingança da Terra”; a natureza não suporta mais tantas agressões!
Ouvir os povos originários e inspirar-se neles – lembrados no último dia 19 de abril – pode ser o caminho para a cura dos males que acometem a saúde do planeta. O imperativo de respeito à mãe Terra e preservação da natureza, parte da cultura indígena, tecem uma outra relação com o meio ambiente, colocando-o a salvo da exploração predatória imposta pelo homem branco, cujos rastros de doenças, violência e destruição são encobertos pelo mantra do progresso e desenvolvimento.
Enquanto isso, os meteorologistas anunciam que as temperaturas irão subir, não há previsão de chuvas e as frentes frias, que esforçam para se formar, não possuem forças suficientes para se manter e passam como uma leve brisa que, no máximo, nos assopra o rosto. O mês de abril, seguindo a tendência de altas temperaturas, fechará com 5ºC acima da média. O suador vai seguir em pleno outono!
A não ser que façamos coro aos gritos que ecoam: parem de cortar as árvores! Sejam as que estão próximas de nós: em nossas ruas, em nossos trajetos cotidianos; sejam àquelas que vivem nas florestas.
Áreas arborizadas chegam a resfriar 10ºC, segundo um estudo da Universidade Estadual Paulista (Unesp), feito pela geógrafa Margarete Trindade Amorim, cujos dados foram publicados na revista Urban Climate.
Árvores, efetivamente, ajudam a resfriar as ilhas de calor, tão presentes nas áreas urbanas; o problema é que todos querem sua sombra, mas ninguém quer sua presença: ora porque suja, ora porque atrapalha.
Ajudar a mantê-las e cobrar do poder público o plantio de árvores nas cidades – em especial o compromisso com a pauta ambiental, ampliando tantas outras ações necessárias, o que deve ser feito também junto as/aos candidatas/os no pleito municipal deste ano – pode ser uma boa oportunidade para mudar essa realidade e colaborar com o planeta, para que as estações do ano sigam seu ciclo natural e nós respeitemos isso!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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