“Há anjos que me visitam à noite
Pequenos, sem asas,
Posso ouvir-lhes os passos tímidos
Adentrando ao meu quarto.
São órfãos da guerra,
São meninos das ruas,
São crianças que não pari,
São filhos que não tive.
Com olhares curiosos se aproximam,
Suas mãozinhas feridas,
Buscam alento em meus cabelos perfumados de esperança
E ali permanecem por horas,
Cacheando com os dedinhos meus cabelos,
Até adormecerem.
E eu desperto sempre assim,
De cabelos cacheados
E com a alma repleta de poesia”.
Desculpa, tia!
Não, não precisa se desculpar, meu bem. Eu só quero ver se você não se machucou. Tem um monte desses copos aqui em casa. Lucas só tem um. E rimos.
E olho as mãozinhas dele, depois de ultrapassar a barreira de cacos de vidro imposta ao chão.
Pronto, se você não se machucou, fico feliz. Vamos mudar sua cadeira para lá, enquanto a tia limpa tudo aqui. Não quero que fique nenhum caquinho no chão, tá bom?
Tá bom, tia. Olha, tem um ali!
Isso, vai me ajudando a ver para eu não deixar passar nenhum.
O que é um copo quebrado diante do amor e do zelo que tenho para com esse menininho? O medo de que ele tivesse se cortado é que me dominava. Copo? Nem me lembrava do copo, que por sinal, era daqueles de requeijão. Fosse de cristal, e eu não estaria nem aí com o copo. Minha preocupação e meu coração estariam sempre voltados para a segurança e o bem-estar dele, do Lucas.
Por isso, queria que Henry o tivesse conhecido. Eles iriam adorar brincar juntos. E junto comigo, claro, porque eu aceito qualquer papel, deito no chão, me finjo de morta, sou policial e até bandida, se preciso for. Ah, sou zumbi também de vez em quando.
E é por isso, Henry, que enquanto escrevo esse texto doído, sinto um arrepio percorrer meu corpo todo, e é como uma dor que não para de doer e que se acentua toda vez que ouço notícias suas.
É por isso, Henry, que queria agora, como muitas vezes faço ao meu sobrinho, beijar-lhe os pezinhos, ainda que estivessem “chulezentos”, como eu brinco com ele, e te pedir perdão. Perdão, Henry... Perdão...
Nós falhamos miseravelmente, não soubemos sequer desempenhar nosso papel de seres humanos em sua brincadeira de criança. Nós não lhe permitimos ser criança, e isso me dói de uma forma que você não pode imaginar.
Perdão se você não teve a oportunidade de conhecer o Lucas, esse menino lindo e esperto a quem amo tanto, e não puderam brincar juntos, nem assistir ao Bob Esponja, munidos de uma bacia de pipoca que eu preparei.
Perdão, Henry, se ao invés de defender-lhe dos cacos dessa vida, você foi assim tão cruelmente ferido por eles.
Perdão, Henry, perdão...
Agora, você está liberto de todo esse sofrimento, e como você pediu, vai poder sim ficar mais um dia com seu pai. Vai poder ficar todos os dias com seu pai. Papai do céu o espera para juntos brincarem no enorme jardim que ele tem na casa dele. Jesus, seu filho, é um menino tão lindo e alegre quanto você e vai adorar ter um amiguinho com quem se divertir. Você será finalmente feliz, Henry!
Perdão por não termos assegurado que sua vida fosse assim aqui nesse plano. Que Ele também nos perdoe um dia, apesar de não merecermos.
Perdão...
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