O casal chega empolgado no viveiro. Só o passeio até lá já valeu, dizem os dois entusiasmados. Acabaram de comprar... uma casa no campo. E agora querem um jardim! No banco de trás do carro, se espalham várias revistas sobre jardins e paisagismo.
“Foi um amigo que indicou o viveiro e explicou como chegar. Lá tem de tudo, disse. Vale conhecer. Ele sabe de plantas”.
Sim, o viveirista sabe de plantas e conhece seu ofício. Começa a visita pelo seu lado preferido... lá onde estão as plantas nativas. Aquelas que são originárias daqui, são nossas, não foram reproduzidas a partir de mudas vindas de fora. Infelizmente, as nossas são menos conhecidas e pouco usadas no paisagismo local.
Lentamente, vai passeando, mostrando, sugerindo, nomeando as plantas que cultiva, como quem lança sementes pelo caminho, esperando que a terra seja boa e a colheita generosa.
Sugere um Tataré próximo à piscina.
Mas os felizes novos proprietários de uma casa no campo perguntam: “No inverno perde as folhas e suja a piscina?”.
E que tal uma quaresmeira para fazer sombra perto da casa?
“Melhor não, as flores caem na calha e entopem tudo. Linda, mas lembra na casa da tia como foi?”.
O Jerivá no corredor? Os frutos vão atrair pássaros.
“Ah! Não gosto do barulho das maritacas e dizem que comem os fios elétricos no beiral”.
Maracujá no pergolado?
“Credo, as flores vão atrair abelhas, como mamangava, morro de medo”.
E grama amendoim para gramado?
“Não, gosto mesmo da esmeralda que não dá manutenção (oi?) e encontramos fácil no mercado”.
Então cereja-do-rio-grande, grumixama e cambucá para o pomar?
“Nossa, não conheço nenhuma dessas. Melhor colocar as que encontramos fácil no mercado. Depois a gente volta”.
O casal foi embora sem plantas e com aquela sensação de que a vida no campo é... diferente.
O viveirista deu de presente uma muda de grumixama com um folheto explicando como cuidar a planta e fazer geleia com a fruta. No verso, uma breve explicação sobre a diferença entre plantas nativas e exóticas.
Na despedida, sugeriu uma visita para conhecer o lugar da casa nova e ajudar na criação de um jardim com plantas nativas, aquelas que são natural e originariamente daqui e são fundamentais para o equilíbrio do ecossistema local.
Já as exóticas vieram de fora, se adaptaram rapidamente e, como são invasoras, competem com as nativas, desequilibrando e até mesmo destruindo a nossa flora natural e original.
Quem sabe eles voltam? Casa nova, vida nova, talvez mente aberta, por que não? – pensa o viveirista!?

“Grumixama (Eugenia brasiliensis) - árvore brasileira de até 15 metros de altura, nativa das matas primárias desde a Bahia até Santa Catarina, hoje considerada rara. Atrativa para a avifauna. Frutos saborosos ao natural ou em sucos, geleias, coberturas para sorvete e recheios para tortas. Nos Estados Unidos, é comercializada e conhecida como Brazilian Berry”.
Teresa Montero Otondo e Raquel da Silva Pinto Barros
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