Por nossas Cosettes

Por Paulo Botelho

 

Eu já tinha visto aquela menina em vários locais da cidade, mas não tão de perto como a vi dentro da padaria onde vou comprar pão pela manhã. Muito magra, de chinelo de dedo, vestido largo e roto; pode ter, no máximo, uns 12 anos.  Ela sorriu-me um sorriso triste, mostrando os seus dentes alvos, ao pedir para “passar no caixa” os oito pães que solicitara à balconista de cara amarrada. E como que carregando um troféu, saiu apressada – quase correndo – apertando o saco de pães contra o peito, assim como uma mãe que vai socorrer seus filhos com fome.

E fiquei pensando na menina Cosette, personagem de “Os Miseráveis”, obra-prima do escritor francês Victor Hugo. Ninguém melhor que ele expressou tanta compaixão pelos oprimidos; tanta generosidade pelos abandonados, especialmente pelas crianças.

A criança é personagem recorrente em toda a obra literária de Victor Hugo. Em “Os Miseráveis”, após ser condenado à prisão por roubar um pão, Jean Valjean – o pai de Cosette – foge e passa a ser perseguido pelo cruel policial Javert que tudo fará para prendê-lo novamente. Milhares de Cosettes estão por aí a sobreviver, miseravelmente, em quase todas as nossas cidades.

De acordo com dados do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), há cerca de 30 milhões de pessoas vivendo neste país em dificuldade com uma renda per capita inferior a R$ 150,00 por mês. Não ganham o suficiente para as suas necessidades mínimas de alimentação, isto é, 2.000 calorias/dia. Desses, 23 milhões vivem em estado de miséria absoluta, não obstante a ajuda do Bolsa Família.

A persistência de propósitos, a seta do tempo e a Dinâmica da História que ensina Hegel, farão com que o momento chegue para que os oprimidos e abandonados possam realizar a viragem rumo à dignidade. Recuso-me a aceitar que o sofrimento de milhares de desempregados, aposentados, discriminados, torturados e agredidos de nossa história tenha sido em vão. E haverá de ser como dizia Brecht: “Somente um vidro separa o pão da fome”.

 

Paulo Augusto de Podestá Botelho é consultor de empresas e escritor. www.paulobotelho.com.br

 

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