Olho para meu dedo médio, enquanto digito esse texto. Olho, porque é inevitável e porque ele dói, está envolto em um curativo daqueles cuja marca tem pronúncia americanizada. Digitar dói, escrever, mais ainda. Nessas horas, sou grata à tecnologia por oferecer-me algum conforto nesse desconforto.
Peguei o dedo no portãozinho de casa, ao sair para uma consulta médica hoje de manhã. Reflexo? Percebi que o portão ia bater muito forte, e num impulso bobo, quis amenizar o barulho. Amenizei, mas o amortecimento se deu graças à minha carne. Parei o portão no dedo, literalmente.
Dor lancinante. Confesso que senti vontade de chorar. Engoli o choro ao lembrar-me da proximidade do horário da consulta e ao notar a presença de uma vizinha, que muito provavelmente vira meu pequeno infortúnio.
Dor lancinante. Não consigo imaginar qual seja a de alguém que perdeu parte do dedo como aconteceu um dia com minha mãe. Há dores e dores, e viver talvez seja apenas uma delas.
Viver é tão incrível e bonito quanto o sangue escorrendo tímido do pequeno corte que se abriu em meu dedo, dado o atrito com o pesado portão.
Às vezes, me pego pensando se as dores todas são compensadas ao longo da caminhada? E a resposta a que sempre chego, e isso independente da situação que se me apresenta, é sim.
Portões se abrem e se fecham o tempo todo. Mas não é o tempo todo que o fazem contra nossa carne. Não sangramos o tempo todo. As pequenas alegrias são oásis em meio à dor. Viver é o ato mais corajoso que pode existir.
Uns dias, com uma dose mínima de coragem, outros, com a fé renovada, mas todos com algum propósito.
Hoje, encararei o portão ao retornar para casa. Sei que ele estará lá, intacto, indiferente à dor que supostamente me causara. Hoje, me encararei no espelho, consciente da dor que me causei, mesmo que de forma não intencional. E seguiremos o portão, eu e o espelho como lembretes muito vivos, do que sou, do que somos todos nós, personagens desse espetáculo glorioso chamado vida.
Viver vai continuar sendo uma aventura depois que meu dedo cicatrizar, e ele vai, porque o corpo humano é uma máquina absolutamente auto-regulável. E se, porventura restar alguma cicatriz, que bom! Mais uma marca do que vivi.
Semana que vem, talvez nem me lembre desse acontecimento, quando, outra vez, estiver diante do computador escrevendo o texto para a Sub-versão, mas, a despeito disso, continuarei nessa aventura que é nossa existência.
Ah, já ia me esquecendo de dizer, vou viver uns cem anos, segundo a médica. Então... Que novos portões se abram!
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