A despeito de qualquer coisa, Maria queria levar adiante sua gestação, havia feito até promessa para engravidar.
A patroa achava um absurdo, afinal, pobre pôr filho no mundo é desaforo. Mais uma boca pra alimentar, será que a empregada não tinha noção?
O companheiro José estava encantado, seus olhos amendoados brilhavam toda e cada vez que presenciava o milagre da vida movimentando-se no ventre da mulher muito amada.
Até os cachorrinhos, porque sim, pobre tem cachorro, apesar de rico achar um absurdo, porque, afinal, como sucede com as crianças, também são mais bocas para alimentar. Bom, até mesmo os cachorrinhos do casal, ainda que à sua maneira, pareciam celebrar a iminente chegada do “irmãozinho”.
O barraco onde moravam era o exemplo mais próximo do que venha a ser um lar. O amor estava em cada centímetro daquele santo lugar.
Maria tivera uns contratempos durante a gravidez com as consultas no postinho, mas sim, tinha realizado seu pré-natal, fizera questão, e, tirando o estresse do serviço e os desaforos da insensível patroa, Maria conseguira levar uma gestação quase que tranquila.
Agora, já no último mês, sentia-se imensamente cansada, pés e pernas inchados, costas doendo, o ar já faltava quando da mais curta caminhada, e subir o morro tornava-se cada vez mais difícil. Carregar criança é coisa que exige demais da mulher, e Maria sentia como se carregasse o mundo no ventre.
Aquele pequeno era mesmo seu mundo, e de José e dos pequenos que aguardavam junto deles a chegada do rebento. Ainda nem sabiam que nome lhe dar, quando Maria começou a sentir as primeiras contrações, às quais se sucederam outras e outras tantas, que não houve tempo de chegar ao hospital, e o parto acabou acontecendo ali mesmo, no barraco-lar.
A dor lancinante podia ver-se descrita no semblante daquela corajosa mulher, que por amor ao filho gerado em seu ventre, ignorava sua própria pobreza material e a pobreza espiritual de seus semelhantes, ignorava o medo, a fome, a miséria, o fato de estar trazendo ao mundo um menino negro, sinônimo de sentença de morte precoce num país como o nosso.
Na verdade, nada disso ela ignorava. Isso tudo, sua fé e sua coragem suplantavam. Seu amor, ah... Seu amor de mãe tornava isso tudo nada.
E foi em meio aos gritos mais agudos e doídos, o rosto lavado em suor e lágrimas, que ele nasceu. Maria sorriu um sorriso aliviado e feliz. Até mesmo os cachorrinhos latiram, um latido quase uivo, um cerimonial de boas vindas. E nada mais se ouviu.
O presépio vivo estava finalmente armado. A criança finalmente nascera, morta. Ninguém veio visitá-los, nenhuma estrela indicou o caminho do morro aos senhores do dinheiro, não houve presentes, mas um silêncio assustadoramente profundo pairou sobre o morro naquela noite. Nem um tiro sequer, nem um rojão, só silêncio, silêncio e dor. E era como se numa prece silenciosa e tétrica, o próprio Deus lhes pedisse perdão.
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