“Uma flor nasceu na rua!
Passem de longe, bondes, ônibus, rio de aço do tráfego.
Uma flor ainda desbotada
ilude a polícia, rompe o asfalto.
Façam completo silêncio, paralisem os negócios,
garanto que uma flor nasceu.
Sua cor não se percebe.
Suas pétalas não se abrem.
Seu nome não está nos livros.
É feia. Mas é realmente uma flor.
Sento-me no chão da capital do país às cinco horas da tarde
e lentamente passo a mão nessa forma insegura.
Do lado das montanhas, nuvens maciças avolumam-se.
Pequenos pontos brancos movem-se no mar, galinhas em pânico.
É feia. Mas é uma flor. Furou o asfalto, o tédio, o nojo e o ódio”.
A flor e a náusea – Carlos Drummond de Andrade
A primavera chegou, finalmente. Minha estação foi deixada para trás, junto com as flores caídas dos ipês. Mas há um certo contentamento com essa chegada. Os ares mudam, o clima também, apesar de muito bagunçado pela ação humana.
A primavera chegou e devíamos celebrá-la, afinal, é a estação das flores, da abundância... Mas há motivos para celebrar?
Acaso a humanidade atingiu sua primavera? Receio que não. A cada nova notícia compartilhada, fico mais convicta de que a humanidade esteja ainda muito longe de atingir sua primavera.
O genocídio em curso em Gaza é prova mais do que suficiente de que não atingimos a beleza dessa estação. Enquanto celebramos a beleza da vida, a morte deixa um rastro indelével em Gaza. A primavera chegou afinal no hemisfério sul do planeta, mas ainda serão necessárias muitas primaveras para que possamos celebrar dignamente a beleza da vida e de suas constantes transformações.
Flores mortas é tudo quanto enxergo, enquanto assisto à morte de meus irmãos palestinos. Sinto-me também meio morta quando constato que minha existência pouco ou nenhum poder tem sobre as decisões absurdas dos senhores do meu tempo. Enquanto escrevo, meus irmãos são dilacerados. Sendo assim, começo a questionar até mesmo a validade e importância desse meu exercício.
A primavera chegou e meu coração não se alegrou como antes. Queria ver flores nascendo no lugar de destruição. Queria ver as crianças palestinas brincando de colhê-las. Queria que ainda houvesse crianças palestinas e brincadeiras e alguma inocência. Queria que a guerra não as tivesse privado de serem simplesmente crianças.
Mas como minha teimosia é feito flor que nasce no asfalto, não canso de esperançar, e isso, a despeito de todos os prognósticos horrendos. Espero feito a flor latente, que pacientemente aguarda o momento certo de abrir e encantar os olhos mais treinados para a beleza.
E enquanto espero, produzo ainda mais esperança; enquanto escrevo, vivo e respiro promessas de um mundo menos cruel e mais justo. Utopia? Mas o que seria de mim sem ela? Ela me impele a caminhar, mesmo em meio aos destroços de uma humanidade em frangalhos.
E caminho de mãos dadas com uma criança, a criança que fui, a que sou, e que ainda vive em mim. A menina teimosa e inquieta que não deixa de acreditar no belo e no bem para todos.
Que a primavera chegue para todos os povos! Que cesse o genocídio na Palestina!
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