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SUB-VERSÃO

Quanto amor cabe em uma cozinha?

Naquele dia, excepcionalmente, na Escola Estadual Professor Raul Brasil, em Suzano, o alimento foi servido na cozinha, e não no refeitório como de costume. O prato do dia? Amor.

De fato, escolas são lugares onde, na minha modesta opinião de professora de escola pública, devia reinar o amor, e o amor em suas mais variadas formas, seja num bom dia, numa pergunta desinteressada de está “tudo bem com você?”, na gentileza, no respeito às diferenças, e, sobretudo, no respeito à dignidade humana.

Mas naquele fatídico dia, 13 de março de 2019, o cenário foi outro, bem diferente desse que idealizo. Naquele dia, o horror tomou conta de algumas dependências da escola, sob a forma de dois meninos, sim, vou chamá-los assim, porque poderiam muito bem ter sido meus alunos.

E foi na cozinha, nesse recôndito divino, que uma mulher corajosa e forte conseguiu abrigar e salvar cerca de 50 alunos. A merendeira, num ato de força e coragem extremas, arrastou um freezer para fazer uma barricada na porta da cozinha, dentro da qual estavam as crianças.

Naquele triste 13 de março, o amor foi servido na cozinha. Feito mãe da gente, sabe? No lugar mais gostoso e acolhedor que pode haver. A cozinha da escola fez-se, naquele dia, e na pessoa da Sra. Silmara Maria, um santo esconderijo.

E de verdade, não me surpreende em nada esse gesto da merendeira. Salvo pouquíssimas exceções, gente que trabalha em escola o faz porque ama gente. E estou certa de que, e apesar das críticas ferrenhas e injustas que muitas vezes eu e meus colegas recebemos enquanto professores, nesse país que odeia seus mestres, faríamos o mesmo para defender nossos alunos. Na verdade, em partes, já o fazemos, quando tentamos insistentemente e a despeito de tudo, salvá-los da violência, da ignorância que assola esse país, das drogas, da pobreza, da miséria, do desamor, e até de si mesmos.

Sabem, todo dia quando entro na sala de aula, eu me deparo com gente. E gente merece e nasceu para ser tratada com dignidade e respeito. Talvez por isso eu ame tanto minha profissão, porque ela me permite o contato direto com tantas almas, tantos universos únicos, que, ao supor estar ensinando, no fundo, sou eu quem mais aprendo.

Suzano nos ensina também algumas lições: a primeira e mais importante talvez seja a de que discursos de ódio e violência só geram mais ódio e violência, e a segunda é a de que precisamos urgentemente ouvir mais nossos jovens, perceber os sinais que eles nos fornecem, seus pedidos de socorro, e agir a tempo de salvá-los.

A escola não é, meus caros, nem nunca será a salvadora da pátria, mas ela pode e deve se tornar um lugar de diálogo, onde o ódio não tenha vez. Tal qual a merendeira da escola de Suzano, precisamos criar barreiras de amor, a fim de que o ódio não consiga penetrar na mente e no coração de nossos queridos alunos.

E isso, isso não se faz cantando o Hino Nacional. Os problemas que enfrentamos diariamente nas escolas desse país que eu amo são infinitamente maiores e mais complexos que o simples suposto “exercício de patriotismo”.

Isso não se faz incitando a violência e o ódio!

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