Em 1986, Renato Russo e sua Legião Urbana lançavam Índios, canção de grande sucesso, que, para além de narrar a relação dos povos originários diante da chegada dos portugueses e o processo de colonização do país, trazia metáforas e analogias que são atemporais, como grande parte das letras da banca.
“Quem me dera, ao menos uma vez, que o mais simples seja visto como o mais importante”, em especial, dada a chegada do Natal, colocando como central sua essência. Festa de tradição cristã, cercada por simbolismos que comemora a chegada de Jesus Cristo, ainda que não haja registros oficiais em relação ao seu nascimento e se trate de uma festividade abraçada por grande parte dos povos, não restrita ao campo religioso.
A narrativa que reconta a chegada de Jesus ao mundo lembra a história de uma mãe que não tinha lugar para conceber seu filho; uma família – que muitos hoje chamariam de “desajustada” – alojada num estábulo, local onde ficam os animais; e uma criança acomodada numa manjedoura, espécie de tabuleiro para depositar comida aos animais.
Ainda hoje é possível colher semelhanças com nossa realidade, em que centenas de famílias, que, não tendo onde passar a noite de Natal e todas as noites do ano, se acumulam nas ruas, sem lugar para parir, descansar, fazer suas refeições e necessidades fisiológicas. Famílias, em seus mais diversos arranjos, que enfrentam a fome, violência, o abandono, desemprego, ausência de renda, moradia, escolaridade, entre tantas outras necessidades e direitos negligenciados pelo Estado.
O amor incondicional presente na história de Jesus o acompanha em sua vida e se materializa do seu nascimento até o fim de seus dias. Em Monte Castelo, outro grande sucesso da Legião Urbana de 1989, se cantava “Ainda que eu falasse a língua dos homens e falasse a língua dos anjos, sem amor eu nada seria”, letra inspirada na passagem bíblica de Coríntios 13 e no poeta português Luís de Camões, onde se traduz em melodia a centralidade do amor!
Sentimento que parece em extinção no contexto atual, fomentado por tanto ódio e desprezo à vida, em especial, ao modo como a pandemia foi – e é – gerida em nosso país com negacionismos, corrupção, crimes contra a saúde pública, ausência de um plano nacional de enfrentamento à crise sanitária, entre outros, denunciados e apurados pela CPI da Covid-19, o que deixou grande parte da população, sobretudo, “a classe que vive do trabalho”, exposta às mazelas da crise sanitária e econômica que assola o Brasil.
Não à toa, acumulamos um saldo bastante negativo com um alto número de mortos pela pandemia, deixando um legado que ainda não sabemos mensurar; terra devastada, que amplificou nossa miséria, fruto de uma sociedade desigual: econômica, racial, política, social, cultural e de gênero, nunca efetivamente equiparada.
Não haverá paz, nem reinará o amor numa “Pátria Armada”, que só faz gerar e aumentar a violência. Em direção contrária, é possível (re) nascer – como lembramos a cada 25 de dezembro – e guiar-se pelo amor, que se materializa em ação concreta de respeito à vida, ao próximo; gratidão, gentileza, tolerância, solidariedade. Não só na noite de Natal, mas de modo continuado em todos os dias do ano, no horizonte de uma sociedade mais justa e igualitária, cujo Estado cumpre o papel central, mas que requer contar com sujeitos coletivos defensores de todas as vidas, quem me dera...
Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo
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Ligia , Quarta, 22 de Dezembro de 2021
Em um mundo de afastamento e isolamento que estamos vivendo nos últimos 22 meses, é acalentador ler um texto tão lindo... crítico sim, mas também doce e esperançoso.