Na manhã do último domingo, 13, cerca de 50 mil pessoas, entre elas 10 mil brasileiros, assistiram à cerimônia de canonização de cinco personalidades no Vaticano, dentre as quais, a da brasileira: Irmã Dulce, a primeira santa do país, que passa a ser chamada de Santa Dulce dos Pobres.

37ª personalidade brasileira canonizada pela Igreja Católica, ela pôde ser proclamada santa após o papa Francisco assinar um decreto que reconhece seu segundo milagre.

Neste domingo, 20, em Salvador, acontece a primeira celebração no Brasil pela canonização da freira, a partir das 12h30, na Arena Fonte Nova, com a expectativa de reunir 55 mil pessoas. A programação cultural e religiosa do evento na capital baiana contará com apresentações musicais, espetáculo teatral e missa.
Mas afinal, quem foi a primeira mulher brasileira a ser considerada santa? Conheça um pouco mais de sua história.
BIOGRAFIA: DE MARIA RITA, A IRMÃ DULCE
Nascida em 26 de maio de 1914 em Salvador, Maria Rita de Souza Brito Lopes Pontes é lembrada como “o anjo bom da Bahia”, “bem-aventurada” e “a mãe dos pobres” por suas obras de caridade e de assistência aos mais necessitados.
Segunda filha do dentista Augusto Lopes Pontes e de Dulce Maria de Souza Brito Lopes Pontes, Maria Rita gostava de brincar de boneca, soltar pipa e jogar futebol, sendo torcedora do Esporte Clube Ypiranga, time formado pela classe trabalhadora e os excluídos sociais.
O interesse pela filantropia e pela vida religiosa veio já na adolescência, aos 13 anos, quando ela começou a atender doentes no portão de casa, local que ficaria conhecido mais tarde como “A Portaria de São Francisco”.
No ano de 1933, logo após a sua formatura como professora, a jovem ingressou na Congregação das Irmãs Missionárias da Imaculada Conceição da Mãe de Deus, no Convento de Nossa Senhora do Carmo, na cidade de São Cristóvão, em Sergipe. No mesmo ano, recebeu o hábito de freira e adotou, em homenagem à sua mãe, o nome de Irmã Dulce.
Irmã Dulce teve como primeira missão ensinar em um colégio mantido por sua congregação, mas o seu pensamento estava voltado mesmo ao trabalho com os pobres. Já em 1935, prestava assistência às comunidades carentes de Alagados, conjunto de palafitas que se consolidara na parte interna do bairro de Itapagipe. Nessa mesma época, começou a atender também os operários, criando um posto médico, e fundando, em 1936, a União Operária São Francisco, primeira organização operária católica do estado, que depois deu origem ao Círculo Operário da Bahia, mantido com a arrecadação de três cinemas construídos com doações.
Em 1939, Irmã Dulce inaugura o Colégio Santo Antônio, escola pública voltada para operários e filhos de operários, no bairro da Massaranduba.
No mesmo ano, aconteceu o fato que definiu o futuro de sua ação social: a invasão de cinco casas, na Ilha dos Ratos, para abrigar doentes que recolhia das ruas de Salvador e não tinham onde ficar.
Dez anos depois, Irmã Dulce ocupou, com autorização da sua superiora, o galinheiro do Convento Santo Antônio (inaugurado dois anos antes), levando para o local os primeiros 70 doentes.

Tal iniciativa deu origem à tradição oral propagada há décadas pelo povo baiano de que a freira construiu o maior hospital da Bahia a partir de um galinheiro. Em 1959, foi instalada oficialmente a Associação Obras Sociais Irmã Dulce e, no ano seguinte, inaugurado o Albergue Santo Antônio.
Irmã Dulce passou por muitas dificuldades, desprezos e humilhações, mas tudo aceitava com humildade e paciência. Certo dia, cumpria sua rotina de pedir doações e ao dirigir-se a um comerciante, estendeu-lhe a mão e este enraivado, cuspiu-a. Ela não se perturbou, e, com um sorriso, disse-lhe: “Isto é para mim. E para os meus pobres? O senhor pode oferecer alguma coisa?”. O homem ficou tão desconcertado e arrependido que deu-lhe um grande donativo e passou a ser um grande apoiador de sua obra.
Segundo o site da Associação Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), atualmente, a sede da entidade atende diariamente cerca de 2 mil pessoas e realiza 12 mil cirurgias e 18 mil internamentos anualmente. Também em Salvador, a Osid é responsável hoje por 5% dos procedimentos ambulatoriais e 9% das internações hospitalares no município, realizando 3,5 milhões de atendimentos por ano. Tudo isso de forma gratuita.
Em 1964, Irmã Dulce inaugurou o Centro Educacional Santo Antônio (CESA), em Simões Filho, para abrigar meninos sem referência familiar e, em 1980, se encontrou pela primeira vez com o papa João Paulo II.
Três anos depois, a freira inaugurou o novo Hospital Santo Antônio, com 400 leitos. Já em 1988, o então presidente da República, José Sarney, a indicou para o Prêmio Nobel da Paz, com o apoio da rainha Sílvia, da Suécia.
Irmã Dulce faleceu no dia 13 de março de 1992, aos 77 anos, em decorrência de problemas respiratórios, no Convento Santo Antônio, ao lado de seus doentes.
O túmulo da freira está na Capela das Relíquias, local para onde seus restos mortais foram transferidos após exumação, em 2010. A visitação está aberta durante todos os dias, das 7h às 18h. A capela fica no Santuário de Irmã Dulce, na Avenida Dendezeiros do Bonfim, no bairro do Bonfim, em Salvador.
OS MILAGRES E A CANONIZAÇÃO DE IRMÃ DULCE
Dois milagres atribuídos à Irmã Dulce foram fundamentais para a canonização da freira.
O primeiro ocorreu em 2001, quando a sergipana Cláudia Santos, hoje com 50 anos, enfrentava uma grave hemorragia após o parto do segundo filho e chegou a ficar em coma, com insuficiência renal. Diante da gravidade do quadro, o obstetra avisou a família que apenas “uma ajuda divina” poderia salvar a vida de Cláudia. Em desespero, a família dela chamou um padre para ministrar a unção dos enfermos. O padre, no entanto, decidiu fazer uma corrente de oração pedindo a intercessão de Irmã Dulce. A hemorragia cessou subitamente.
O caso de Cláudia foi analisado por dez peritos médicos brasileiros e seis italianos e o milagre passou por três etapas de avaliação: uma reunião com peritos médicos, que deram o aval científico, com teólogos e, finalmente, a aprovação final do colégio cardinalício, tendo sua autenticidade reconhecida de forma unânime em todos os estágios.
Em outubro de 2010, a Congregação para a Causa dos Santos, por meio de voto favorável e unânime de seu colégio de cardeais e bispos, reconheceu a autenticidade do milagre, cumprindo, dessa forma, a penúltima etapa do processo de canonização, estágio que levaria à beatificação da religiosa no ano seguinte. A partir de então, a freira baiana passou a ser reconhecida com o título de “Bem-Aventurada Dulce dos Pobres”, tendo o dia 13 de agosto como data oficial de celebração de sua festa litúrgica.
Um ano antes, o papa Bento XVI já havia reconhecido suas virtudes heroicas e ela passou a ser considerada venerável.
Em maio deste ano, o Papa Francisco promulgou o decreto que reconhece o segundo milagre atribuído à intercessão de Irmã Dulce, cumprindo-se assim a última etapa do processo de canonização da beata baiana.
José Maurício Moreira é considerado curado milagrosamente por graça de Irmã Dulce. Natural de Salvador, aos 22 anos, ele teve o diagnóstico de um glaucoma muito sério, descoberto tardiamente e já em estado avançado. O tratamento, que durou dez anos, não foi suficiente para impedir que o nervo ótico, responsável pela comunicação com o cérebro, fosse destruído. Desse modo, entre os anos de 1999 e 2000, ele ficou completamente cego de ambos os olhos e assim permaneceu por mais de 14 anos. Em 2014, morando em Recife, Maurício teve uma conjuntivite muito grave e, sofrendo com fortes dores, intercedeu à Irmã Dulce para que as aliviasse, porém, para sua surpresa, voltou a enxergar, o que é considerado um milagre.
O fato também passou por três etapas de avaliação e teve sua autenticidade reconhecida de forma unânime em todos os estágios.
Para a Igreja Católica, uma graça só é considerada milagre após atender a quatro pontos básicos: a instantaneidade, que assegura que a graça foi alcançada logo após o apelo; a perfeição, que garante o atendimento completo do pedido; a durabilidade e permanência do benefício; e seu caráter preternatural, isto é, não explicado pela ciência.
Na história contemporânea da Igreja, trata-se do terceiro caso mais rápido de canonização: Irmã Dulce se tornou santa 27 anos depois de sua morte. O papa João Paulo II foi canonizado nove anos após a morte, e Madre Teresa de Calcutá (1910-1997), 19 anos depois.
ORAÇÃO A SANTA DULCE DOS POBRES
Desde quando foi beatificada, em 2011, a religiosa já tinha uma oração oficial, que teve algumas modificações após ela se tornar santa. O trecho em que estava escrito “Bem-Aventurada” foi substituído por “santa”.
Confira a oração que destaca a importância do amor aos pobres e excluídos, assim como Irmã Dulce fez em vida, mas também após a morte, ao deixar seu legado nas Obras Sociais Irmã Dulce (Osid), em Salvador.
Senhor nosso Deus,
lembrados de vossa filha,
a santa Dulce dos Pobres,
cujo coração ardia de amor por vós e
pelos irmãos, particularmente os
pobres e excluídos, nós vos pedimos:
dai-nos idêntico amor pelos necessitados;
renovai nossa fé e nossa esperança
e concedei-nos, a exemplo desta vossa filha, viver como irmãos,
buscando diariamente a santidade,
para sermos autênticos discípulos missionários de vosso filho Jesus.
Amém.
FRASES MARCANTES
Em vida, Irmã Dulce sempre se destacou por declarações firmes, cheias de amor, fé e devoção. Confira algumas delas:
“Procuremos viver em união, em espírito de caridade, perdoando uns aos outros as nossas pequenas faltas e defeitos. É necessário saber desculpar para viver em paz e união.”
“O que fazer para mudar o mundo? Amar. O amor pode, sim, vencer o egoísmo.”
“O importante é fazer a caridade, não falar de caridade. Compreender o trabalho em favor dos necessitados como missão escolhida por Deus.”
“Se Deus viesse à nossa porta, como seria recebido? Aquele que bate à nossa porta, em busca de conforto para a sua dor, para o seu sofrimento, é um outro Cristo que nos procura.”
“Deus não atende a todos? Ele recusa alguma coisa, quando pedimos com fé, esperança? Como vamos recusar alguma coisa ao nosso semelhante, ao nosso próximo?”
“Sempre que puder, fale de amor e com amor para alguém. Faz bem aos ouvidos de quem ouve e à alma de quem fala.”
“Se houvesse mais amor, o mundo seria outro; se nós amássemos mais, haveria menos guerra. Tudo está resumido nisso: dê o máximo de si em favor do seu irmão, e, assim sendo, haverá paz na terra.”
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