Ouro, o Brasil é ouro...
Ouro com elas!!!
Elas, mulheres, mulheres negras, foram as que subiram no lugar mais alto do pódio. Foram elas que coloram a medalha de ouro no peito, nos permitindo sentir novamente orgulho de nossa bandeira, nosso hino – apropriados, surrados e desvirtuados pela extrema-direita nos últimos anos – e acima de tudo, a honra em tê-las nesse lugar, a importância esimbolismoque elas representam!
Não há como não destacar o protagonismo feminino nas Olímpiadas de Paris deste ano. As mulheres eram a maioria na delegação brasileira e, das 20 medalhas conquistadas, 12 foram por elas!
Mulheres que lutam cotidianamente para sobreviver numa sociedade, como a brasileira, que acumula uma imensa dívida social, reproduzindo inúmeras expressões da desigualdade.
Mulheres que enfrentam o preconceito, o machismo, o racismo, inúmeros “nãos” e condições desiguais de acesso e competitividade com o gênero masculino para chegar e estar onde elas quiserem!
Chegar nas Olímpiadas não é para todos. Os melhores atletas estão lá – onde “só” é possível estar a partir demuito esforço, dedicação e sacrifícios. É louvável a luta, garra e persistência, por vezes de uma vida inteira, para atingir a glória, e ser no ápice coroado como o melhor, o campeão!
Mas longe de uma visão “romantizada” – centrada tão somente no esforço individual de cada um, numa lógica meritocrática tão propagada pelo sistema capitalista – aflora-se o trato dado ao esporte em nosso país e o desinvestimento nessa área e no campo das políticas públicas como um todo.
O esporte profissional ou de alto nível não é passatempo e atletas não são recarregáveis a cada quatro anos. O investimento maciço e continuado nessa área, como política de Estado – seja no fomento a um trabalho de base que reconheça talentos e permita seu desenvolvimento; seja para assegurar a prática de esporte a todas as pessoas como propulsor de qualidade de vida e bem-estar – busca universalizar uma área ainda muito elitizada em nosso país.
Na prática, o exercício do esporte nas parcelas mais ricas da sociedadeé, por vezes, uma extensão da vida, algo que faz parte do cotidiano; aos mais pobres, a dureza de cada dia, de quem é esfolado para sobreviver nessa sociedade, o faz (quase) inexistente ou quando muito fruto de um esforço descomunal para sua realização. Haja vista identificar a ausência, precariedade ou insuficiência de centros esportivos, culturais e de lazer nas periferias dos grandes centros, nas cidades pequenas ou mais pobres do nosso país.
As poucas e limitadas iniciativas existentes mostram seu papel e importância. Como o “Bolsa Atleta” – que patrocina os esportistas de alto desempenho. Desde 2005, quando o programa foi criadosob gestão do Ministério do Esporte – o mesmo que foi extinto no governo anterior – já forambeneficiados 815 atletas, com 2.605 bolsas, num investimento de aproximadamente R$ 347 milhões, conforme o próprio Ministério. Mais ainda é necessário mais, muito mais...
Mais investimentos para que mais Rebecas e Beatrizes subam no lugar mais alto do pódio; para que mulheres e homens sejam valorizados no esporte em pé de igualdade, haja vista identificar, por exemplo, o quão o futebol masculino, que sequer esteve nas Olímpiadas de Paris, conta com muito mais apoio e investimento em relação ao feminino; para que o esporte faça parte do nosso cotidiano e seja acessível a todas as pessoas, contando com os investimentos necessários e reconhecimento de toda sociedade, seja para a prática amadora do dia a dia; seja para estar novamente no pódio daqui a quatro anos!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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