À medida que o tempo vai passando, o leitor começa a conhecer melhor seu colunista. O estilo de escrita e o jeito de ser da pessoa. Já está dando para perceber, aos que desde o início seguem minhas postagens que, em tudo que escrevo, vai um toque de saudosismo. Mas um saudosismo sadio, sem lamentação, sem ser piegas; um jeito de relembrar bons momentos da vida.
E aqui vai mais um pedacinho gostoso da minha caminhada, ligado a uma receita que, por meio da sua simplicidade, me remete a um tempo que não volta mais. Trata-se de um molho de misto quente que, nos meus tempos de colégio, lá pela quinta ou sexta série, praticamente novata naquela escola, experimentava quando comprava o lanche na cantina da escola.
Para que entendam, vou voltar naquele tempo quando, ao tocar o sinal do recreio, as meninas (só tinha meninas nos anos 70 no colégio) desciam as escadas na desabalada para pegar lugar na fila da cantina e conseguir a primeira leva de lanche para não passar o recreio todo esperando serem atendidas nas fornadas seguintes. A cantina vendia doces que não sei enumerar quais, visto que, às vezes que eu ganhava o dinheiro para o lanche, era para a “fila do misto” que me dirigia.
Pensando agora, talvez o misto do colégio se tornou algo que marcou minha vida estudantil, justamente por ser uma ocasião especial; pois as coisas não eram tão fáceis como agora, havia dia certo para levarmos dinheiro para o lanche. Então, tudo que não conseguimos tão fácil tem um sabor diferente (talvez as gerações atuais não entendam esta minha afirmação).
E continuando... quem cuidava do misto era uma freira baixinha, risonha – não sei o nome dela –, e uma servente ajudava neste momento, deixando todos os lanches preparados num espaço ao lado. A chapa elétrica acomodava vários lanches de uma vez, diferente dos tão famosos tostex que, nas nossas casas, preparava um lanche por vez. E, ao ficarem prontos, a madre, como chamávamos, com um guardanapo de papel, ia perguntando: com molho ou sem molho?
Se a resposta fosse positiva, ela pegava uma colher, daquelas de cabo comprido de mexer suco nas lanchonetes (pouco se usava canudinho naquela época), e abrindo o lanche, pincelava essa colherada de molho, que dava o toque especial naquela merenda tão esperada.
Agora vem o principal... Consegui a receita do molho do misto por meio de uma amiga e vizinha de infância chamada Emília (in memorian) que, aproveitando uma tarde que a madre passou defronte as nossas casas, a fez parar e ditar a receita que tenho até hoje. Na primeira vez que publiquei, há mais de 15 anos e depois fiz questão de selecioná-la para fazer parte do meu livro, foi unânime o sentimento que aqui relatei entre as leitoras, ex-alunas do colégio e, cada vez que experimento, acontece a mágica de voltar naquele tempo tão gostoso da minha vida.
E como tem durabilidade na geladeira, em geral, sempre dobro ou triplico a receita, visto que é sucesso até sobre o feijão com arroz. Experimente!
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1 pimentão vermelho sem sementes
½ lata pequena de massa de tomate (cerca de 3 colheres de sopa)
½ cebola pequena
1 folha de louro
½ xícara (chá) de óleo e vinagre misturados
Sal a gosto
Pique a cebola e o pimentão grosseiramente. Coloque tudo no liquidificador e bata até ficar um creme. Coloque em vidro e mantenha em geladeira
Até nosso próximo encontro!

Maria Inês de Oliveira Chiarion Zecchini é professora de Educação Infantil nesta cidade e autora do livro “Redescobrindo – receitas da cozinha bragantina”. Faz parte da Associação dos Escritores de Bragança Paulista (Ases), foi membro fundadora da Academia Bragantina de Letras (ABL) de 2005 a 2008, e colunista do jornal Cidade de Bragança de 2005 até 2011.
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