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Crônicas de um Sol Nascente

REINVENTANDO-SE

Toda crise  - como a da atual pandemia - deixa o ser humano, basicamente, com duas alternativas: ou ficar inerte, lamentando-se; ou ir à luta, mudando hábitos e estratégias que já não mais funcionam em uma nova realidade. E essa foi justamente uma das lições mais preciosas que aprendi quando fui consultor de RH em Tóquio: a de que, se quisermos sobreviver na selva (principalmente a capitalista), “não adianta muito choramingar seja qual for a crise com a qual nos deparamos”   - a parte entre aspas, aliás, é citação da frase de um colega norte-americano, chamado Jarrett, que me ensinou muito sobre Recursos Humanos.
Lembrei-me, recentemente, das palavras de Jarrett ao assistir, com o meu filho, ao programa de tevê “Okaasan to issho”, -  traduzido “junto com a mamãe” (o “Otousan to issho”  - junto com o papai  - é só aos domingos, pois, no Japão patriarcal, parte-se do pressuposto de que não há homens cuidando dos filhos também durante a semana). Críticas ao patriarcado japonês à parte, o programa é agradável e tem uma grande aceitação entre os pequeninos, especialmente na hora em que os apresentadores começam a dançar com um grupo de criancinhas. 
O programa, que tem décadas de existência, costumava, aliás, terminar com essa dança. Mas eis que surge a famigerada pandemia, e, claro, por motivos de segurança, as crianças já não mais puderam participar do divertido quadro. 
O que, no entanto, poderia ser motivo de demissões, ou mesmo o fim do programa, deu espaço à criatividade: fazendo com que os quatro apresentadores tivessem de recapacitar-se como atores - criando e representando novos personagens - para poder, assim, manter o interesse da criançada. E o resultado foi surpreendente, porque a audiência, pasmem, até aumentou com esse novo formato! Ou seja, os produtores do programa não se limitaram a reclamar, e, usando da criatividade, não só sobreviveram, como até melhoraram, diversificando os quadros apresentados.
O programa infantil em questão é, aliás, um dos muitos casos de rompimento com as velhas formas, que tenho observado no Japão em tempos de pandemia. Por exemplo, os históricos izakayas (bares), que costumavam espremer em pequenos espaços os “bebuns” japoneses, foram forçados a distribuir as mesas de acordo com o distanciamento social. E até o tradicional show das gueixas  - em que elas costumavam dançar e tocar o shamisen (um instrumento musical de três cordas) para os clientes -  agora é feito... on-line!
Pois é, até o povo japonês, que não gosta de quebrar tradições, tem buscado nas inovações uma saída para a crise que, infelizmente, parece ser ainda mais esmagadora que a de 2008. 
Afinal de contas, diante desse quadro tenebroso, o melhor mesmo é adaptar-se. Tô certo ou tô errado, Darwin-sensei?

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de trezentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018) e “Gotas frias de suor” (2018). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES). Em maio de 2020, foi um dos escritores premiados no Concurso “Crônicas de Quarentena”, do Clube de Autores.

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