Acordou naquela manhã exausta, com o choro de sua criança recém-parida ao fundo. As imagens se misturavam em sua mente, não sabia ao certo o que era sonho, o que era realidade. Era um pesadelo.
Dos diversos choros que ouvira ao longo da vida, sabia, aquele era de fome. O peito seco não era capaz de alimentar seu rebento. Os armários vazios não eram capazes de nutrir nenhuma mãe.
O choro persistia e, à sua medida, seu desespero aumentava. Mal conseguia se levantar para tentar oferecer algum afago ao seu bebê. Estava fraca, do parto, de fome, da vida.
A vida ainda assim renascera dela e de seu ventre vazio. Era um milagre como seu corpo esquálido e absolutamente deficiente de nutrientes havia conseguido levar a cabo a experiência de gerar outra vida. Mas ela estava ali, diante de seus olhos, gritando a plenos pulmões por um pouco de atenção e leite.
O que fazer diante desse milagre? Aceitá-lo como a um fardo muitíssimo pesado de carregar? Renegá-lo?
O choro estridente é abafado apenas pelos estrondos das bombas. E se uma delas resolve cair sobre o que restou de seu lar? E se acerta logo seu pequenino?
O que restou é muito pouco para se preocupar... E bombas não caem, elas são jogadas. Sua mente cada vez mais confusa e atormentada podia lhe pregar peças. Não ouvia mais o choro do bebê, afinal. Haveria se acalmado? As bombas o haviam assustado a ponto de fazê-lo se calar? Ou o barulho da última bomba havia sido tão forte a ponto de ensurdecê-la?
No lugar do choro, um chiado agudo no ouvido. A sensação de estar submersa sem estar. A atmosfera pesando sobre seus ombros como uma folha enorme levada, com esforço hercúleo, por uma formiga.
Era a isso, afinal, ao que a guerra havia lhe reduzido? Apenas um ser minúsculo diante do horror, incapaz de sustentar a si ou a quem quer que fosse?
O choro volta, agora, mais fraco. Os pulmões recém-formados deviam estranhar aquela poeira toda. Uma mãe sabe, uma mãe sempre sabe. Era o último. Chorou com ele.
Num último esforço sobre-humano, rastejou até ele. Suas mãos macias puderam sentir a pele delicada de seu menino. Permaneceu por alguns breves minutos assim, apenas sentindo sua mão sobre ele. Ele se acalmou, cessou o choro. Acalmou-se como se acalmam todos os bebês, quando em contato com a mulher que lhes deu a vida. Todos, todos os bebês, sejam eles de zonas de guerra ou de paz, sejam eles brancos ou negros, sejam eles ricos ou pobres, de dinheiro ou de afeto.
E adormeceu. Adormeceram. Em seu sonho, ela visitou o paraíso.
Dias depois, foram encontrados, sem vida, sob os escombros. Estavam juntos, seus corpos macérrimos cobertos por uma revista, cujas páginas se dedicavam a uma extensa reportagem sobre a febre do momento: Os bebês “reborn”.
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