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Olhar Social

“Se a natureza fosse um banco, já teria sido salva”

A contundente frase do escritor uruguaio Eduardo Galeano(1940-2015) é tão real quanto atual!

Temos visto – mais do que isso, estamos sentindo na pele, a partir de todo o desconforto e os danos à saúde gerados pela baixa umidade, estiagem, calor extremo e ausência de chuvas – o ecossistema em chamas em (quase) todo canto do país.

Cenas dramáticas de labaredas infinitas, corredores de fogo, animais mortos ou feridos se espalham, enquanto assistimos calados e pacíficos a destruição desenfreada da natureza, de reservas nativas, matas virgens, biomas e espécies que podem simplesmente desaparecer.

A realidade dos biomas brasileiros é dramática para não dizer catastrófica: o Pantanal sofre com um aumento das queimadas em 2.362% neste ano, se comparado ao primeiro semestre de 2023. A maior planície alagada do mundo corre o risco de extinção, o que pode ocorrer antes do final deste século; o Cerrado já teve 50% da cobertura vegetal original desmatada, o que corresponde a 100 milhões de hectares, segundo os dados de 2022, número que aumentou 16% em 2024. A floresta Amazônica – apesar de ter tido importante redução no desmatamento, em grande parte oriunda da pressão do Parlamento Europeu ao recusar produtos de áreas desmatadas – também vê sua vegetação tropical arder em chamas, conforme veiculado pelo Brasil de Fato.

Uma tragédia sem precedentes, embora há tempos anunciada pelos cientistas quanto aos danos que sofreríamos,seja pelo aquecimento global, seja pela exploração desenfreada do meio ambiente. E se nada for feito, e feito brevemente, talvez estejamos dando início ao começo do fim. Em palavras diretas e sem rodeios: ao fim da espécie humana neste planeta.

Certa vez, Airton Krenak, grande liderança indígena, lembrou que “a Terra pode nos deixar para trás e seguir o seu caminho”, mesmo porque ela consegue muito bem viver sem a presença humana, mas o ser humano não sobrevive sem um meio ambiente minimamente preservado.

Há quem diga que parte – ou grande parte – da onda de queimadas que assola o país – para além das consequências do aquecimento global – é criminosa, tendo como foco expandir as fronteiras do agronegócio canavieiro do Sudeste e agropecuário do Norte e Centro-Oeste. Fato é, que elas não são de hoje, mas estão cada vez mais presentes e constantes, seja como efeito dos danos causados ao meio ambiente, seja como ação criminosa perpetrada pelo próprio ser humano.

A inanição por parte do governo federal – que conta inclusive com um Ministério dedicado ao Meio Ambiente – para além de declarações protocolares sobre esse gravíssimo problema, é realmente desoladora.

Caberia um enfrentamento articulado, imediato e gerido em âmbito nacional, junto aos estados federados e municípios, se somando as Forças Armadas, para ações tanto pontuais, em relação ao enfrentamento em massa das queimadas em curso, identificação e punição de ações criminosas; quanto medidas a médio e longo prazos, com planos de reflorestamento, plantio de árvores, preservação das matas, educação ambiental, reciclagem e coleta de lixos etc...

Precisamos de ações concretas e rápidas, mais que discursos!

Não nos esqueçamos – e isso tem suas consequências – de todo o desmantelamento que as instituições públicas em defesa do meio ambiente, como o Ibama e ICMBio, tiveram no governo anterior. Isso para nos lembrar que nossas escolhas políticas têm sim seu peso.

Isso coloca as eleições municipais que se aproximam como um bom indicador para reconhecermos candidatas e candidatos que tratam o meio ambiente como prioridade absoluta em seus planos de governo. Esse campo não pode mais ser relegado, sob o princípio de que fazer algo – do micro ao macro – é uma questão urgente, se quisermos permanecer habitando este planeta!

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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