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Painel

Sem “Essa” de Queiroz

Na última quinta-feira, 18, o país inteiro foi surpreendido com dois acontecimentos. O primeiro, logo pela manhã, foi a prisão de Fabrício Queiroz, amigo íntimo do presidente da República desde 1984 e de seus filhos, 01, 02 e 03. Ultimamente, como disse meu pai, é bom que o bandido durma de terno, pois a polícia chega antes das 6h.

À tarde, naquele mesmo dia, o ministro da (des)educação, Abraham Weintraub anunciou sua saída da pasta, sob o argumento de que teria recebido indicação para o Banco Mundial. Há quem diga que a saída do ministro, já previamente agendada para ocorrer nos próximos dias, teria sido antecipada com o objetivo de abafar a inevitável repercussão da prisão de Queiroz.

O fato é que Queiroz não apareceu, mas sim apareceram com ele. Queiroz estava escondido em um imóvel de propriedade de Frederick Wassef, localizado na cidade de Atibaia-SP.

Wassef é advogado de Flávio e do próprio presidente Bolsonaro, segundo revelou o depoimento prestado por Paulo Marinho. Não obstante o claro vínculo entre Queiroz e a família Bolsonaro, Wassef também é amigo íntimo da família Bolsonaro e frequentador assíduo do Palácio do Planalto, tendo inclusive participado da cerimônia de posse de Fábio Faria.

O cerco ao presidente Bolsonaro está se fechando e, a cada novo acontecimento, a cada nova derrota sofrida no cenário político, aumenta sua dependência do famigerado “centrão” para se manter no cargo. Contudo, o bloco político pode retirar seu apoio a qualquer momento.

A exemplo disso, parlamentares do “centrão” afirmaram ao G1 que a crise política ganhou uma nova dimensão com a prisão de Queiroz. E mais, afirmaram que Flávio Bolsonaro se tornará alvo dentro do próprio Congresso, pois se Queiroz estava escondido na casa do advogado de Flávio, ele terá que esclarecer.

Quanto ao presidente Bolsonaro, os parlamentares afirmaram que se o presidente da República tinha conhecimento do paradeiro de Queiroz, a situação se complicará.

Assim, diante de um cenário cada vez mais turbulento, Bolsonaro demonstra fragilidade e irritação em suas declarações, pois certamente as possíveis implicações serão sérias e os resultados imprevisíveis.

A exemplo disso, diante da prisão de Queiroz, não tardou para que o presidente saísse em defesa do amigo, ex-policial militar diretamente associado à milícia do Rio de Janeiro (escritório do crime) e ao esquema de “rachadinha” envolvendo Flávio Bolsonaro, o filho 01.

Bolsonaro afirmou que “parecia que estavam prendendo o maior bandido da face da Terra” e avaliou a prisão de Queiroz como “espetaculosa”.

Talvez tão espetaculosa quanto foi a condução coercitiva do ex-presidente Lula, talvez menos. Condução aquela que fora determinada pelo ex-juiz, ex-ministro da justiça, ex-herói dos bolsonaristas, ex-postulante à uma vaga no STF, ex-reduto moral do governo, ex-amigo pessoal da família Bolsonaro e de Carla Zambeli, Sérgio Moro, que hoje encontra-se no limbo social e político.

Bolsonaro acrescentou, ainda, que o amigo estava na cidade de Atibaia, pois assim estaria mais próximo do local onde se submete a um tratamento médico. Para quem não tinha conhecimento do paradeiro de Queiroz, o presidente se mostrou “bem informado”. 

Todos os fatos até então verificáveis, como a estreita e longa relação de amizade entre a família Bolsonaro e Fabrício Queiroz, bem como o próprio pronunciamento do presidente acerca de sua prisão, indicam que o paradeiro do amigo “ausente” nunca foi um mistério... Para ele.

A prisão de Fabrício Queiroz, por certo, impactará no cenário político atual. Eventual delação seria a pá de cal, os pregos do caixão do atual governo. Queiroz provavelmente é um arquivo ambulante que causa arrepios aos palacianos. Possivelmente alvo de “queima de arquivo”. Veremos as cenas dos próximos capítulos.

Enquanto isso, vai-se embora o pior ministro da Educação da história do Brasil. Aliás, Weintraub nunca foi ministro da Educação, mas sim, um soldado raso que utilizava do ministério como um posto avançado para disseminar o ódio e a guerra ideológica perpetrada pela extrema direita ascendente (em voo de galinha) no Brasil com o apoio do presidente.

Mas mesmo no fim da “vida ministerial”, Weintraub deixou mais uma marca em nossa história. Antes de anunciar sua saída, revogou a portaria que estabelecia a política de cotas para negros, indígenas e pessoas com deficiência física em cursos de pós-graduação, como mestrado, mestrado profissional e doutorado. É o elitismo neoliberal mostrando sua faceta mais cruel e eficiente para a manutenção da desigualdade social.

Sua saída é um alento, independentemente de quem venha a ocupar o cargo. Como dizia Queiroz, não Fabrício, Eça de Queiroz, “políticos e fraldas devem ser trocados de tempos em tempos pelo mesmo motivo”.

Eça de Queiroz, de maneira geral, abordava em suas obras temas simples e do cotidiano, as quais estão permeadas de ironia, humor e, de vez em quando, de pessimismo e crítica social.

Assim, ironicamente, vivemos em um país onde a educação é, com certeza, sem Eça de Queiroz e a política é, por motivos óbvios, sem “Essa” de Queiroz. 

 

Régis Fernandes é advogado e professor, pós-graduado em Filosofia e em Direito Imobiliário, membro das Comissões de Direitos Humanos e Assistência Judiciária da 16ª Subseção da Ordem dos Advogados do Brasil.

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