Durante todo este mês, sociedade civil e poder público realizaram inúmeras atividades com um objetivo em comum: alertar para os crescentes casos de suicídio em todo o mundo e incentivar a valorização da vida.
Trata-se da campanha Setembro Amarelo, organizada pela Associação Internacional para a Prevenção do Suicídio e copatrocinada pela Organização Mundial da Saúde (OMS). A escolha do mês se deu em virtude do Dia Mundial da Prevenção do Suicídio, celebrado todo ano em 10 de setembro.
No Brasil, a data foi criada no Brasil em 2015 pelo CVV (Centro de Valorização da Vida), em parceria com o CFM (Conselho Federal de Medicina) e a ABP (Associação Brasileira de Psiquiatria).
No decorrer do mês, monumentos em diferentes cidades também adotam a cor amarela em suas fachadas para dar visibilidade à causa. O amarelo, segundo o site do CVV, representa a vida, a luz e o sol, refletindo a proposta da campanha de preservar a vida.
Em Bragança Paulista, a Secretaria de Saúde realizou, durante todo o mês, diversas atividades nas unidades de saúde com a intenção de conscientizar e alertar sobre a importância da prevenção ao suicídio, com a finalidade de enfatizar a necessidade da atenção especial com o bem-estar e a saúde mental de crianças, adolescentes e adultos.
De acordo com a OMS, cerca de 800 mil pessoas morrem por suicídio todos os anos, o que equivale a uma morte a cada 40 segundos.
No Brasil, ainda segundo a organização, a taxa de suicídios a cada 100 mil habitantes aumentou 7% no Brasil, ao contrário do índice mundial, que caiu 9,8%. No país, em 2016, a OMS contabilizou 6,1 suicídios a cada 100 mil habitantes, contra 5,7 a cada 100 mil habitantes em 2010.
Em Bragança Paulista, conforme dados informados pela Secretaria Municipal de Saúde, até a última quinta-feira, 26, havia nove casos registrados de suicídio.
O Jornal Em Dia ouviu duas profissionais da cidade, que direta ou indiretamente, trabalham com o tema. A primeira é a psicóloga Adriana Malta, que falou sobre saúde mental e o papel da Psicologia nesse contexto, e a segunda é Simone Bueno, presidente do projeto Papo Sério, que comentou a importância de dar voz à juventude, um dos públicos mais vítimas de suicídio em todo o mundo.
Confira também serviços gratuitos de suporte psicológico, como o CVV, e atendimentos oferecidos na rede de saúde pública do município.
PALAVRA DE ESPECIALISTA: “CUIDAR DO CORPO É IMPORTANTE, MAS SAÚDE MENTAL É FUNDAMENTAL”, AFIRMA PSICÓLOGA

Os fatores que podem levar uma pessoa a tomar a trágica decisão do suicídio são muito discutidos entre especialistas e vão de transtornos psicológicos à dependência química. O Jornal Em Dia conversou com a psicóloga clínica Adriana Malta, especialista em Saúde Mental e Atendimento ao Adolescente e responsável pela criação do Projeto Casulo, realizado no município entre 2011 e janeiro de 2013, com o objetivo de levar atendimento psicológico aos adolescentes que viviam em bairros distantes do Espaço do Adolescente, no São Lourenço. Ela falou sobre alguns dos motivos que levam ao suicídio, o momento de procurar ajuda, a importância da Psicologia nesse cenário, entre outras questões.
Adriana explicou que, mesmo após tantos estudos, o suicídio ainda é algo extremamente perturbador e intrigante para os profissionais da saúde mental. “Podemos pensar no suicídio como um comportamento extremamente sofrido, realizado por aqueles que passam por uma dor emocional insuportável, como se fosse um pedido de ajuda. Depressão, experiências traumáticas precoces, perdas importantes, estresse, álcool e outras drogas podem ser fatores que levam um sujeito a cometer suicídio”, pontua.
Para ela, apesar de o problema alcançar pessoas de várias idades, gêneros e classes sociais, é possível traçar um “perfil” para o suicida hoje. “Atendo adolescentes que trazem sinais por vezes discretos, mas presentes: baixa tolerância à frustração ou não resilientes; jovens que praticam o “cutting”, automutilação; abandono familiar. Observo e me preocupo também com aqueles que possuem histórico de suicídio na família”, explica a psicóloga.
Apesar de os motivos serem diferentes, assim como a forma que as vítimas encontram para tirar suas vidas, pode-se observar características comuns aos casos, de acordo com a especialista. “No que concerne à dor emocional, podemos equiparar quase 90% dos casos. Outros como psicose, alucinações por conta de transtornos psiquiátricos, podem ser considerados exceções”, observa.
Perceber sinais de um comportamento suicida nem sempre é fácil, por isso, a família deve estar atenta aos detalhes. “A família é fundamental. Os sinais podem aparecer de forma bem velada, mas é possível perceber que alguém anda mais introspectivo ou eufórico demais; quando ocorrem verbalizações constantes de ‘falta de sentido’, ‘falta de esperança’, ‘solidão’; a família pode observar a presença de cuttings, enfim, é possível notar sim”, comenta a profissional.
O público jovem é tido como um dos mais vulneráveis ao suicídio, por razões diversas. “Em sua maioria, os adolescentes tentam mais suicídio. Mais meninas que meninos, mas os meninos conseguem se matar mais. Percebo hoje que nossos jovens têm grande dificuldade em lidar com perdas ou frustrações; os vínculos familiares estão mais fragilizados. A mim parece que muitos pais percebem a adolescência como uma fase na qual tudo pode e ao mesmo tempo se referem a ela como ‘aborrecência’. Adolescentes são sujeitos em transformação, em metamorfose e demandam um cuidado maior. O uso de álcool e outras drogas cresceu muito e parece que perdemos o controle. O álcool, por ser uma droga socialmente aceita, transita de forma livre entre os jovens, abrindo portas para comportamentos de risco”, aponta Adriana, salientando a importância do profissional de Psicologia nesse cenário. “Em primeiro lugar, quando se observa sinais ou existe uma fala aberta sobre isso, o primeiro passo é alertar a família ou os responsáveis. Por vezes, só o fato de ‘falar sobre’ e ser ouvido com respeito e acolhimento já é uma ajuda. Existem manejos que facilitam a atuação deste profissional como a busca constante de algo que seja positivo na vida daquele sujeito que sinaliza o ato, seja amigos, religião, projetos para o futuro, sonhos, família. Sempre apontamos o que nem sempre pode ser visto pelo adolescente num momento de desespero. Precisamos falar sobre o suicídio abertamente”, defende.
Também é fundamental saber o momento de contar com apoio profissional, pois o que muitos consideram uma simples fase de tristeza pode ter se tornado uma depressão, por exemplo. Nesse sentido, a psicóloga orienta quando se deve procurar auxílio. “Quando pensamentos negativos, de culpa e falta de esperança parecem uma constante na vida destas pessoas”.
Quando o assunto são políticas públicas de prevenção ao suicídio, Adriana vê com otimismo o cenário nacional e regional, mas reconhece que é preciso haver ações ainda mais enérgicas e efetivas em várias áreas. “O Brasil está iniciando uma jornada mais atenta para a questão do suicídio, a passos bem lentos. Precisamos promover cidadania, tolerância e desigualdade social; um trabalho mais pontual com as famílias e as escolas (bullying, exclusão, abandono e valorização da vida); no caso de adolescentes, construir identidades que possam promover o protagonismo juvenil (planos para o futuro, profissões, metas); investimento pesado em esporte, arte e cultura para nossas crianças e adolescentes. O trabalho em rede é fundamental e o investimento em Caps (Centros de Atenção Psicossocial), UPAs (Unidades de Pronto Atendimento), prontos-socorros é premente. Precisamos pensar na prevenção com programas interessantes na base da saúde como a atenção primária, a educação, o esporte e a cultura. Bragança Paulista está iniciando algo neste sentido. Hoje temos mais entidades envolvidas na campanha do Setembro Amarelo; as escolas mais participativas; temos algumas portas abertas para o adolescente como o Espaço do Adolescente, mas precisamos de muito mais. A meu ver, as escolas deveriam ter psicólogos atuando diariamente”, defende, enfatizando a importância de trabalhar a saúde da família. “O modelo familiar precisa ser repensado não só com políticas públicas, mas com a sociedade mais consciente e atuante. Ampliar equipes de saúde da família seria extremamente efetivo”, completa.
Para chamar a atenção para a importância dessas ações, é que ela considera de extrema relevância campanhas como o Setembro Amarelo. “Sou fã destas campanhas. Elas conscientizam cada vez mais a população sobre esta questão; trazem informações que ajudam e parcerias com entidades e instituições que, unidas, fortalecem a luta a favor da causa. O Setembro Amarelo é algo que precisamos incentivar sempre!”, declara.
Às famílias que perderam um ente querido por meio do suicídio, ela diz: “Não se culpem!”. E a toda a sociedade, de modo a evitar que novos casos como esses venham a ocorrer, Adriana deixa uma mensagem de conscientização sobre saúde mental. “Quanto mais globalizada a sociedade, mais cresce a importância da saúde mental. Precisamos nos humanizar mais! Cuidar do corpo é importante, mas a saúde mental é fundamental! Vamos afinar nossa ‘escuta’. Falar menos e ouvir mais”, conclui.
“JOVEM PRECISA DE ACOLHIDA E NÃO DE SERMÃO”, FALA A COORDENADORA DO PROJETO PAPO SÉRIO

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), o suicídio é a segunda principal causa de morte entre jovens com idade entre 15 e 29 anos. Por isso, muitas vezes, o público jovem é um dos mais visados pelas campanhas de combate e prevenção ao suicídio.
Em Bragança Paulista, o projeto Papo Sério, realizado pela Fundação Casa e Comenor (Associação Companheiros do Menor), em parceria com a Polícia Militar, por meio dos Projetos JBA (Jovens Bragantinos em Ação) e Proerd (Programa Educacional de Resistência às Drogas e à Violência), a Diretoria Regional de Ensino e os Poderes Judiciário, Executivo e Legislativo, trabalha o suicídio durante todo o ano, mas dá mais ênfase ao tema durante o mês de setembro.
A reportagem conversou com Simone Bueno (na foto, à esquerda), coordenadora geral do Papo Sério, articuladora social da Fundação Casa e presidente do Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (CMDCA), que falou sobre as ações desenvolvidas pelo projeto, a importância de dar voz aos jovens e de unir sociedade civil e poder público a fim de tornar o trabalho mais efetivo.
De acordo com Simone, o Papo Sério está levando rodas de conversa às 19 escolas estaduais do município com o tema “O valor da vida”, para jovens com idade entre 13 e 18 anos, abordando assuntos como depressão, automutilação e suicídio. Nos encontros da Educafro, na Universidade São Francisco (USF), a prevenção ao suicídio também é tema de debate com os bolsistas. Durante esses encontros, Simone afirma que é possível perceber o quanto os jovens precisam de atenção especializada. “A maioria dos jovens vem nos pedir socorro pelos amigos, já que não se abrem com os adultos. E os jovens, quando detectados, não conseguem atendimento sozinhos, então precisam de um direcionamento”, comenta.
Os motivos que levam esses jovens a doenças como depressão são múltiplos. “Os próprios jovens trazem que eles estão cada vez mais distantes da família, a falta de fé independente da religião, e acima de tudo, a globalização. O celular é hoje mais importante que as interações humanas. A partir dos 16 anos, eles ficam perdidos, pois precisam de um emprego, não têm, pensam em uma faculdade, não têm, e por aí vai... Ressaltando que muitos jovens vêm de uma família disfuncional e não conseguem lidar com essa situação. Violência doméstica, abandono, a falta do ‘não’ dos pais, porque o suicídio entre jovens acontece nas classes de baixa renda na média e na alta”, enumera.
Quando os jovens chegam ao Papo Sério, são encaminhados para atendimentos, a depender do caso. “Falamos com a escola – quando não é a escola que nos chama –, a escola chama os pais e juntos encaminhamos aos serviços necessários, seja saúde, assistência social, entre outros. Todos os casos que chegaram ao Papo Sério foram acolhidos pelo Espaço do Adolescente e, dele, encaminhados para onde a equipe determinar”, explica.
Segundo a coordenadora, muitas vezes, os jovens que procuram o projeto já enfrentam dificuldades há algum tempo, por isso, a capacitação para lidar com o problema seria capaz de evitar ainda mais casos de suicídio. “O que mais nos preocupa é que quando o adolescente chega à comissão do Papo Sério, ele já está com depressão há algum tempo. Nosso sonho de consumo é que a rede estadual seja capacitada para detectar as alterações nos jovens antes da depressão que leva às tentativas de suicídio e algumas tentativas base se transformam em suicídio”, fala.
Porém, mais do que fornecer atendimento à vítima, é preciso orientar quem convive com ela, por isso, ela informou que o projeto está caminhando para montar uma rede com o propósito de atender toda a família. “Em alguns casos, os pacientes estão em acompanhamento, atendidos e medicados quando necessário, e mesmo assim, se matam. Isso nos leva a pensar que este jovem precisa de mais apoio e com certeza essa família também”, diz.
À família, que muitas vezes não sabe como agir, ela deixa algumas orientações para chegar até esses jovens e ouvir suas demandas. “Ir até onde eles estão, não criticando e acusando-os, tem que ouvir mais e falar menos. Um jovem com depressão precisa de acolhida e não de sermão, na maioria das vezes, os pais não conseguem entender o que está acontecendo, porque a primeira coisa que eles fazem é se isolar, param de ir pra escola e aí começa a cobrança. Por isso, procure a escola, pergunte como eles estão, procure um posto de saúde, converse com a enfermeira, procure os amigos, e principalmente, ouça seus filhos, dê atenção mesmo que a questão pareça sem importância, e se você, pai, não conseguir ajudar seu filho, procure ajuda, não tenha vergonha de ser limitado. Vamos trocar a fala pela escuta com os nossos filhos”, pontua, salientando que é justamente dar voz aos jovens a missão do Papo Sério. “Os jovens precisam ocupar o espaço vazio que eles têm, e dando a eles as ferramentas certas, conseguiremos ter grandes homens, principalmente nos colocando no lugar do outro, já que hoje é tudo muito individual. O Papo Sério vai pra escola pra falar da vida, do quão importante esses jovens são e que não existe nada ruim que eles não possam superar, porque eles são incríveis e capazes de mudar o mundo”, pondera.
Apesar dos tabus que rondam o suicídio, ela acredita que a sociedade está se interessando mais pelo assunto, o que é um sinal muito positivo para combater o problema. “Acredito que com o país todo falando sobre o suicídio, as pessoas começaram a se interessar mais pelo assunto. A sociedade está mais aberta a conversar. Há uns dez anos atrás, não saberíamos de casos como sabemos hoje pelas redes sociais. Como as informações estão sendo levadas pra todos, os jovens estão mais seguros em contar e falar deles mesmos. Mas uma coisa posso garantir: essa mudança aconteceu porque são jovens falando pra jovens”, declara.
Para despertar ainda mais conscientização sobre o tema, ela deixa uma mensagem à sociedade bragantina. “Bragança tem muita gente do bem, que gostaria de ajudar e discutir sobre um tema tão doloroso, mas necessário. Que setembro se multiplique nos onze meses do ano, e deixo um desafio aos bragantinos: se cada um de nós aprendermos a ouvir e a se colocar no lugar do outro, vamos, com certeza, salvar vidas”. Ao poder público, ela diz: “Não importa qual o seguimento que está realizando a atividade, vamos substituir os egos por cumplicidade, afinal o mundo muda quando você muda”.
Aos jovens, principal alvo de seu trabalho, Simone deixa um recado: “O papo aqui é sério! Se você tem essa dor que não passa, grita pra alguém em quem você confia, porque você é muito importante pra muita gente, você é incrível e consegue ser a pessoa mais especial deste mundo... E se quiser, grita pra nós: paposeriobraganca@gmail.com”, finaliza.
SERVIÇOS DE ACOLHIDA
No Brasil, o Centro de Valorização da Vida (CVV) presta apoio emocional e prevenção do suicídio, atendendo voluntária e gratuitamente todas as pessoas que querem e precisam conversar, sob total sigilo, por telefone – basta discar 188 –, e-mail e chat 24 horas todos os dias. Para saber mais, acesse: https://www.cvv.org.br/.
No município de Bragança Paulista, são disponibilizados alguns serviços para pessoas que estejam sofrendo com esse tipo de problema. Há disponíveis os atendimentos oferecidos pelo Caps II (Centro de Atenção Psicossocial Dr. Adib Buainain) (telefone: (11) 4035-5040), Ambulatório de Saúde Mental Infanto-Juvenil (telefone: (11 4035-5936), Ambulatório de Especialidades Dr. José de Aguiar Leme (telefone: (11) 4035-5049) e Hospital Dia, no Hospital Universitário São Francisco, que atende somente maiores de 18 anos e do sexo masculino (telefone: (11) 2490-1130 - Husf). Para mais informações, entre em contato com a Secretaria Municipal de Saúde pelo número: (11) 4034-6700.
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