
Um mês de conscientização e reflexão sobre a importância da valorização da vida: este é o Setembro Amarelo, discutido e celebrado em todo o Brasil, com o objetivo de alertar para sintomas que podem levar ao suicídio e evitar milhares de mortes prematuras. Segundo dados de 2017 do Ministério da Saúde, cerca de 11 mil pessoas se suicidam por ano no Brasil - o oitavo país com maior número de suicídios - sendo essa a quarta maior causa de morte entre jovens de 15 a 29 anos. Segundo dados da Secretaria Municipal de Saúde, em Bragança Paulista, foram registrados sete óbitos e 68 notificações de tentativas de suicídio neste ano – um número crescente e alarmante.
Segundo Maria Cristina Lo Sardo, psicóloga e presidente da Apsibrap (Associação dos Psicólogos de Bragança Paulista e Região), esses dados podem ser ainda maiores. “Muitas mortes que são dadas como naturais podem ter sido por um ato suicida, se fosse feita autópsia psicológica, conforme o Projeto de Lei 498/07”, explica. O referido projeto, que aguarda apreciação pelo Senado Federal, obriga os hospitais da rede pública e privada a informarem ao órgão público de saúde - estadual ou municipal - os casos de atendimento a pessoas com diagnóstico de tentativa de suicídio.
Diagnosticar a causa que leva alguém a tirar a própria vida não é tarefa fácil, pois o assunto ainda é considerado tabu para muitas pessoas. “Falar sobre suicídio é algo bastante difícil e amplo, por não termos uma única causa. Não há um único fator responsável: transtorno de personalidade, doenças mentais, uso de substâncias psicoativas são algumas das situações onde o indivíduo tem um sofrimento que não consegue suportar. Ele não tem a intenção de tirar sua vida, mas sim, acabar com o sofrimento, com a dor”, explica a psicóloga.
No caso dos jovens - público em que a prática desse ato é cada vez mais comum – o debate é ainda mais delicado. “O jovem está vulnerável a essa epidemia silenciosa, como chamamos, pela transição que se encontra, pelo não amadurecimento neurológico e psíquico, não tendo crítica à exposição ao meio dos grupos de amigos e experimentando o mundo de maneira onipotente”, avalia a profissional.
E é justamente para oferecer suporte aos pacientes que se encontram em meio ao sofrimento e às incertezas que existem iniciativas como o CAPS – Centro de Atenção Psicossocial. “O CAPS faz parte dos dispositivos da RAPS (Rede de Atenção Psicossocial). É um serviço de portas abertas para acolhimento e tratamento a pacientes acima de 18 anos, transtornos mentais, recorrentes, graves e crônicos”, explica Andrea, Teixeira, terapeuta ocupacional do CAPS II, que fica no Centro de Bragança. Especificamente em relação ao suicídio, o Centro realiza um trabalho de prevenção junto aos pacientes que frequentam o local, desenvolvendo atividades em grupos que abordam e discutem o tema, além de oferecer apoio às unidades de saúde da atenção básica.
Podem procurar o serviço pessoas que demonstrem determinados sintomas que indicam um possível comportamento suicida. “A pessoa em sofrimento pode dar certos sinais, assim, familiares e amigos próximos podem detectar, prevenir e encaminhar para o serviço especializado para o cuidado. É muito importante conversar com alguém de confiança e pedir ajuda para que este possa entrar em contato com serviços de saúde para o suporte e avaliação”, afirma Andrea. Desse modo, é preciso que a família também esteja atenta, já que, muitas vezes, tais sinais são silenciosos. “A qualquer indício de isolamento, autoflagelo, apatia, transtorno do sono, transtorno alimentar, baixo rendimento escolar, uso de substâncias psicoativas e outros transtornos identificados, é necessário ter um olhar cuidadoso, e buscar ajuda de um profissional da área da saúde”, recomenda a psicóloga, que deixa um alerta. “Pais e educadores: nossos jovens precisam ser olhados, precisam ser cuidados e precisam ter limites, senão serão vítimas do nosso descaso. Precisamos sair do nosso comodismo, da nossa zona de conforto, cobrar e nos fazer merecedores de atenção”, orienta.
Justamente para evitar novas vítimas e quebrar o paradigma em torno do tema, Maria Cristina enfatiza a importância de campanhas como o Setembro Amarelo. “A campanha vem como um alerta, na intenção de fazer prevenção, trazendo de maneira esclarecedora à população e mobilizando os órgãos públicos a darem a assistência necessária à questão”, opina, apontando para a necessidade de se ter políticas públicas eficazes para minimizar o número de casos. “Temos já políticas publicas - e muito boas - mas nos gabinetes, nos arquivos; precisamos começar a cobrar para que elas venham para a prática, que sejam implantadas, no acolhimento do indivíduo vulnerável. Para isso, precisamos de espaços apropriados, contratação de profissionais da saúde capacitados para a demanda”, pondera.
Neste mês – e em todos os outros do ano – mais do que nunca, é vital ter empatia e oferecer suporte àqueles que, por algum motivo, estão cogitando a possibilidade de cometer esse ato. “Pensamentos e sentimentos de querer acabar com a própria vida podem ser insuportáveis e pode ser muito difícil saber o que fazer e como superar esses sentimentos, mas existe ajuda disponível. É muito importante conversar com alguém em que você confie. Não hesite em pedir ajuda, você pode precisar de alguém que te acompanhe e te auxilie a entrar em contato com os serviços de suporte”, conclui a terapeuta ocupacional. “Ao jovem, ao idoso, ao indivíduo que não está suportando sua dor: se dê uma chance de buscar uma ajuda, se dê uma chance de olhar o mundo de uma outra maneira que não seja um buraco negro. Sabemos que quem se deu essa chance, encontrou essa força”, finaliza a psicóloga.
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