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Crônicas de um Sol Nascente

Shichi-Go-San

 

Nosso Endi completou cinco aninhos. E no Japão esta é uma das três idades da infância consideradas muito especiais, visto que simbolizam um importante ritual de passagem rumo ao crescimento – uma espécie de mudança do status da criança dentro do clã e, consequentemente, da sociedade japonesa. Idades tão especiais que, aliás, possuem uma celebração própria, esta conhecida como Shichi-Go-San (em japonês: 7-5-3), e que é assim dividida: meninas celebram “três” (san) e “sete” (shichi) anos de idade; e meninos, os “cinco” (go).

E por que três, cinco e sete? Há muitas hipóteses, mas uma explicação que tem grande força é a da preferência dos povos do leste asiático pelos números ímpares – números estes que acreditam ser de sorte. Daí possivelmente terem escolhido o três, o cinco e o sete acreditando que estes números, representando a “metade” da fase infantil, também seriam possuidores de uma energia positiva que favoreceria a transição da criança para um período de maior maturidade. 

Em termos cronológicos, a origem do Shichi-Go-San remonta ao século VIII, correspondente no Japão ao Período Heian, quando Quioto ainda era a capital do país. Inicialmente restrito à nobreza, com o passar do tempo, o Shichi-Go-San foi adotado também pelos samurais, que acrescentaram à celebração alguns aspectos interessantes, como, por exemplo, permitir que os cabelos dos meninos crescessem – uma vez que até os três anos de idade mantinham a cabeça raspada. Foram também os samurais que introduziram no ritual o uso do hakama – uma espécie de “calças largas” usadas sobre o quimonoaos meninos que completassem cinco anos de idade.

O hakama, aliás, usei-o pela primeira vez justamente no último dia nove de fevereiro – data em que Endi, sua mãe e eu fomos tirar fotos para o Shichi-Go-San. Na verdade, a data tradicional da celebração é quinze de novembro, quando as famílias visitam um templo para que a criança seja abençoada nessa nova etapa da vida; mas hoje em dia as coisas ficaram mais flexíveis, de modo que as famílias costumam organizar primeiramente – ou tão somente – uma sessão de fotos: que pode, como percebem, ser realizada em qualquer época do ano, não somente em novembro. No nosso caso, escolhemos o dia seguinte ao aniversário do pequeno.

A sessão de fotos, aliás, como podem imaginar, foi um momento inesquecível para a nossa família. E para este pai brasileiro, então... Ver o meu filho vestindo o hakama, celebrando o Shichi-Go-San... Ah... é um sonho de imigrante que se realiza! Quem já passou por isso conhece bem essa emoção.

E chorão que sou, claro, não consegui conter as lágrimas. Mas a equipe de fotógrafas, de altíssimo nível, transformou até os momentos do “pai chorão” em verdadeiras obras de arte.

No final, saímos do estúdio com um lindo álbum e muitos sorrisos. Incluindo, é claro, o sorriso de um pequeno que, unindo o Brasil e o Japão, tem crescido, crescido...

Vou parar por aqui, senão começo a chorar outra vez.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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