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Olhar Social

“Só sei que nada sei”

Talvez uma das frases mais famosas no universo da filosofia possa ser atribuída ao filósofo grego Sócrates (469 a.C. -399 a.C.): “só sei que nada sei”!

Uma fina ironia que reconhece nossa ignorância, duvida de nossas certezas e nos leva a caminhar numa busca infinita e incessante pelo conhecimento. E no momento atual: duvidar das fake news e questionar as falsas verdades.  

O “amor à sabedoria” – como se traduz o termo filosofia, palavra de origem grega – desafiou e desafia os pensadores ao longo da história a refletir, meditar, raciocinar e tentar entender questões tão fundamentais da vida humana. 

Filosofar pode ser compreendido, ainda, como uma forma de pensar a realidade; uma realidade viva, vivida por pessoas em contextos históricos específicos e em constante transformação. É ficar matutando algo, tentando entender as coisas; quiçá em prol de pensamentos que materializem ações, que levam a mudanças e contribuam para um mundo melhor, em que todas e todos possam se beneficiar.

Filosofia como matéria escolar tão atacada e incompreendida quanto ao tamanho de sua importância pelos senhores que gerem a pasta da educação. Como – a título de exemplo, mas não só – a realidade do estado de São Paulo, onde o governo estadual vai cortar metade da carga horária de filosofia, artes e sociologia.

Outro exemplo recente, que viralizou em várias redes de comunicação, foi a fala de Fabio Pietro – secretário de Justiça e Cidadania, do então governador paulista Tarcísio de Freitas (Republicanos) – que disse durante a abertura da 4ª Conferência Estadual de Juventude de São Paulo: “A turma do sindicato fica dando aula vagabunda de filosofia e sociologia para que vocês não aprendam nada. Vocês vão aprender agora matemática e português, porque vocês vão sentar na cadeira do prefeito, vão sentar aqui na cadeira do secretário. Vocês vão ser a liderança e vocês vão mandar no Brasil”.

A vaia generalizada dos jovens presentes dá pistas dos vários problemas que sua fala representa ao tentar atacar de uma vez só tanto o papel dos sindicatos quanto o próprio ensino de filosofia e sociologia – sendo esses, a seu ver, desnecessários, inúteis e improdutíveis; defendendo um modo de estudar sem sensibilidade e visão crítica de mundo.

Encoberta em sua fala – talvez nem tão oculta assim – esteja a demarcação de papéis atribuídos pela classe social que se pertença. Concentrar os estudos dos estudantes secundaristas do ensino público, em português e matemática – ainda que se reconheça a importância dessas matérias – parece reforçar que pensar, refletir, filosofar sobre o mundo não cabe a esses estudantes. A eles e a elas é reservado uma formação rápida, intensa e objetiva, que lhes formem como mão de obra para atender as necessidades do mercado de trabalho.

Ora, filosofar pertence a castas específicas!

Se “penso, logo existo” como diria o pai do pensamento moderno, René Descartes (1596-1650), a fala do então secretário incomodou; e o incômodo leva ao questionamento; e o questionamento leva ao tensionamento; e o tensionamento pode levar a mudanças... Talvez esteja aí a chave do porquê não querem que os estudantes do ensino público paulista pensem: pensar incomoda quem está no poder e tem o poder sobre as coisas!

Karl Marx – filósofo alemão (1818-1883) – diria então: “os filósofos limitaram-se a interpretar o mundo de diversas maneiras; o que importa é modificá-lo”. Mudança que está nas mãos de todos nós e que pode começar dizendo ao governo paulista – e seu secretariado – que vamos filosofar sim. Vamos seguir questionando as estruturas de uma sociedade, como a brasileira, tão desigual e injusta, que segue demarcando papéis que cabe a cada um a depender de sua classe social, gênero, raça e etnia.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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