Ela era, a meu ver, a criatura mais bonita a povoar aquele aquário. Grande, roliça, viçosa, e ao mesmo tempo, ágil, perspicaz e dona de um nadar tão majestosamente bonito, com seus longos bigodes astutos, capazes de perceber tudo a seu redor. Ela era uma pirarara, ou “o grande peixe do rio”, como os índios sabiamente a chamam.
Chegou à nossa casa ainda pequena, filhote, e desenvolveu-se magnificamente com o passar do tempo, sempre muito bem alimentada por filé de peixe e algumas outras inusitadas refeições que ela mesma tratava de providenciar, à base de alguns peixinhos desavisados.
Mas era linda! Que criatura maravilhosa, com seu nado majestoso, lembrava-me da grandeza daquele que a criou, da grandeza dos rios de nosso país, da riqueza imensurável que se oculta em seus leitos...
O leitor deve estar se perguntando o porquê do uso de tantas formas verbais no passado. E eu explico: ela morreu na manhã de ontem. Ela morreu, e ainda que haja outros peixes, o aquário está vazio. Sua ausência preencheu toda a água de um vazio doído e absoluto.
Ela morreu após um salto feroz pra fora do aquário. Foi recolocada, com todo amor, mas não resistiu, talvez a queda tenha sido muito grande, talvez tenha empregado muita força nesse saltar, talvez o impacto com o solo, duro, estranho à quem está habituada a povoar a lisura da água a tenha machucado demais...
É triste, mas eu sei que agora a pirarara, o grande peixe do rio, está povoando as águas de um rio muitíssimo maior que esse aquário que enfeita nossa sala. Perfeito pra ela, um ser tão grande, poderoso e sagaz. O rio que corta o Éden amanheceu mais bonito e com que alegria os outros peixes a receberam. Com que alegria o Altíssimo, seu criador e criador de todos os seres, a recebeu.
Em partes, eu a compreendo. Tem gente e bicho que não cabem mesmo onde estão, por maior que seja o espaço, tem gente e tem bicho que têm gana de liberdade, e a maior expressão de liberdade, pasmem, é a morte.
Não, não me interprete mal, interprete-me literalmente. Afinal, é através da morte que alcançamos a Vida, a vida plena e definitiva.
Quero ser eu também como o grande peixe do rio, quando um dia vier a deixar esse mundo. Que Ele me receba, nos receba, tal qual à pirarara:
– Venha, minha filhinha “grande”... Estou tão feliz...Você finalmente retornou ao lar...!
E a deitou suavemente, dorso tocando a água, embalando-a ainda na superfície, como quem prepara um recém-nascido para o sono. E suavemente também a soltou, deixando-a livre para mais uma vez, e dessa vez para sempre, nadar seu nado majestoso nas águas límpidas do Rio da Vida.
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