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SUB-VERSÃO

Sozinha?

“O que você está fazendo aqui, menina? Aqui não é lugar para criança!” – Repreendi-a, enquanto sorria por dentro pelo fato de ela, corajosa como sempre fora, ter ousado se arriscar para estar ali, junto comigo. A bronca fora mesmo só para manter meu papel de adulta sisuda, já que esse meu encontro com ela, além de absolutamente previsível, era também muito, muito aguardado por mim.

Que sensação boa a de sentir sua mãozinha buscando a minha, como quem dissesse, “Eu estou aqui, não vou sair do seu lado!”.

E dito e feito, como costuma mesmo ser quando uma criança faz uma promessa.

“Vamos, use a minha imaginação... Esse grande tubo branco pode ser pintado com as cores que você quiser, você se lembra disso, não é? Lembra de quando inventávamos histórias? Podemos inventar uma agora! O que você acha?”

“Aninha, pra que essa agitação toda? Deixe-a descansar... Ela está com dor, querida. Essa posição não é nada confortável e você sabe que ela terá de permanecer por uma hora nela até o final do exame”, disse Ele com sua inconfundível voz, ao mesmo tempo forte e doce. E Aninha sorriu, consentindo.

Forte e doce também foi seu toque ao segurar minha outra mão.

Naquele momento, soube que não estava sozinha, que nunca estivera sozinha. De um lado, a menina que um dia eu fui, arteira, travessa, curiosa, imaginativa e corajosa; e do outro, Ele. Em que melhor companhia eu poderia estar?

Ela, me lembrando da necessidade de abstrair, imaginar mundos dentro daquele barulhento aparelho de ressonância magnética. Ele, acalmando meu coração, a fim de pudesse por alguns momentos me esquecer da dor e relaxar. Ambos, lembrando-me de que, apesar da aparente solitude que aquele tubo sugeria, nunca saíram do meu lado.

E quando, finalmente ouvi o derradeiro estalo, apoiei-me nos dois para conseguir me levantar. De fato, tenho feito isso toda a vida. Quando as dores se abatem sobre mim, busco e encontro o apoio deles, a força e a doçura que só pode vir deles.

“Você foi sozinha, Ana? Eu não consigo...”, perguntaram espantados alguns colegas meus, quando comentei sobre o exame.

Não, definitivamente, não fui sozinha, pensava eu. E não é que aquela assustadora uma hora passou num piscar de olhos?

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