Goela abaixo
São sete horas da manhã do dia em que, erroneamente, celebra-se a independência de meu país. A serra do pedreiro que trabalha sem descanso na construção ao lado de minha casa foi quem me lembrou disso. Que é feriado da independência, olha só! Vocês não podem imaginar minha exultante alegria ao receber esse lembrete sonoro.
A serra intermitente do pedreiro que trabalha no feriado, pasmem, foi quem me lembrou ser feriado e haver gente trabalhando. Sabe, é dessa gente que trabalha aos feriados, sem muitas vezes nem ter registro em carteira, na informalidade, e portanto, sem direito algum a hora extra prevista por lei, é dessa gente que esse país é feito. E por isso, só por isso, o absurdo de nos auto-proclamarmos independentes. Desde quando? De quem?
Afinal, uma vez libertos de Portugal, seguimos nossa história, percorrendo um longo, sem fim caminho de subserviência, dependendo daqui e de lá, ora do capital estrangeiro, ora do FMI, ora da “bondade despretensiosa” de investidores. Independentes? Ah, por favor...
Acaso o pedreiro que trabalha aos feriados é independente? Ele, que deixa todo o dia um pouco de sua alma grudado ao cimento, com que constrói as casas do patrão. Casas para alugar, porque quem tem dinheiro não se cansa de ter mais e quem não tem trabalha para que ele o consiga.
Talvez até, e isso já é especulação de minha parte, o pedreiro, esse que trabalha de sol a sol, inclusive aos feriados, ainda não possua ele mesmo sua casa. Mas seu trabalho está feito, o operário segue, com suor e cimento, construindo patrões, nesse país que ousa dizer-se independente todo sete de setembro.
Vou tomar sorvete à tarde, está decidido. Não fui ontem, hoje, eu vou. Quero de pistache, jabuticaba e ameixa.
E fui, o sol da liberdade raiava de tal maneira, que me enchi de protetor solar fator 50 e máscara, é claro, não me esqueci dela. Era só o tempo de comprar o sorvete e voltar pro carro para deliciar-me.
Fila na sorveteria, e uma vez respeitada a distância entre as pessoas, ela parecia ainda maior do que realmente era. Um moço sentado na calçada almoça. Às três da tarde, meio desajeitado, sob o sol, aquele que citei antes, ele come uma marmita. Ele olha pra mim e é sem jeito também, com um sorriso no rosto, daqueles que damos só mesmo a quem queremos convencer com gentileza, que pede: - Moça, compra uma Coca pra mim? Pra eu tomar com a marmita...
Eu: - Mas vende Coca aí? – e não, não fui irônica em minha pergunta. Não tomo refrigerante há anos, e de verdade, quando vou a essa sorveteria, vou como que hipnotizada pelo objeto do meu desejo, o sorvete, então, nem sabia que tinha uma geladeira com refrigerantes lá.
- Tem! – ele diz, rindo, animado, certo de que não ia negar um pedido assim tão urgente quanto uma Coca geladinha pra conseguir engolir a secura da marmita sob o sol.
- Então, tá bom, só vai demorar um pouquinho, porque a fila tá grande, argumento, ao que ele acena positivamente.
Enfrento a fila, só pensando na demora... Será que ele vai parar de comer e esperar pelo líquido sagrado? Será que vai pensar que eu o enganei, e que quando sair, vou simplesmente fingir-me de esquecida da minha promessa?
O cartão não passa. Quer sua via?
Que demora! Vocês não entendem... ele precisa da Coca pra terminar de comer... E me lembro de ser criança e fazer o mesmo pedido à minha mãe, como se sua comida fosse algo assim indeglutível sem o auxílio da fórmula americana.
Pronto, acesso a geladeira, e sim, há muitas latas de Coca geladinhas. Pego uma das do fundo, na intenção de que esteja mais geladinha. Pego a ficha pro sorvete, mas deixo a fila, avisando o moço atrás de mim que já volto pra escolher o sabor, só vou deixar a Coca pro moço lá fora.
- Ah, agora sim! Ele diz. E essa sua expressão é pra mim a mais sincera forma de agradecimento.
Tomo sorvete, não tinha o de jabuticaba... Uma pena. Mas também não tinha decência, não tinha igualdade, não tinha justiça e nem distribuição igualitária de renda nesse meu país, em mais um “festivo” sete de setembro.
Também não tinha comida no prato de muita gente, dignidade, alegria... Até a alegria esse país tem roubado a seus filhos. Mãe gentil... Nada! Mãe relapsa, mãe corrupta!
Era só mais um sete de setembro e desconfio que fosse mesmo preciso muita Coca para fazê-lo rolar goela abaixo.
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