Há cem mil mortos. Cem mil corpos descidos a sete palmos de terra desse imenso latifúndio chamado Brasil. Cem mil pessoas, porque não gosto de pensá-las em números. Números são, antes de qualquer coisa, impessoais. São só números e não geram em minha mente esquizofrênica nenhuma imagem se não a de algoritmos.
Pessoas definitivamente não são números. Qualquer uma delas poderia muito bem ser um amigo meu, um parente distante, um aluno! Um amor, talvez até o amor da minha vida, se é que isso realmente existe... E se existe, corro o risco horrendo de não chegar nem mesmo a conhecê-lo. Podia ser eu!
Há mais de cem mil mortos enquanto escrevo esse texto. E, enquanto meus dedos digitam essas letras, esse número só aumenta.
Tenho tido dias estranhos, talvez porque sinta demais tudo ao meu redor, ou talvez porque não suporte estar diuturnamente em minha presença e precise dos passeios e viagens a que estou habituada, e que servem como fuga de mim mesma e alguma inspiração. Até mesmo o ato de escrever tem se tornado cada vez mais difícil, porque escrever enquanto se tem um país entregue à própria sorte é mesmo difícil. Escrever enquanto mais de cem mil mortos lhe pesam nas costas é difícil.
Há tempos que carrego uma tristeza imensa comigo. Quase sempre a evito, tentando substituí-la por alguma pequena alegria ou gota de esperança. É difícil...
Às vezes, me pego visitando sites de roupas na internet, já que não ousaria sair para comprá-las. Hoje mesmo, mais cedo, peguei-me olhando um desses sites, e vi um vestido tão lindo, mas tão lindo, que apesar do preço, senti-me tentada a comprá-lo.
Vocês percebem no que me transformei? Há cem mil mortos e me pego escolhendo vestidos pela internet? Vestido para usar quando, em qual ocasião? Nem tenho saído de casa!
O vestido é lindo, de um estampado de flores com cores tão vivas e intensas, que chego apensar já saber em que ocasião usá-lo. Egoísmo é a palavra pra essa minha atitude?
Ainda não estou certa se vou comprá-lo ou não, estou dividida. Ninguém em luto jamais compraria um vestido tão lindo e vivo e florido.
Mas o mais contraditório e feio é que ainda não consegui matar todas as flores em mim. E quando confesso isso, assim, num texto publicado num jornal, chego a sentir alguma vergonha.
Há cem mil mortos no país que eu amo e eu ainda insisto em querer enxergar alguma beleza, onde simplesmente não há.
Talvez eu compre o vestido e o guarde, coisa que nunca faço, para a oportuna ocasião. Ela virá? Os cem mil ressurgirão da terra, sorrindo e abraçando os seus, com a saudade de quem nem sequer conseguiu despedir-se?
Não sei mais o que pensar, nem mais o que escrever. Mas ainda espero pelo dia em que ao meu país e ao seu povo lhes sejam devolvidos o respeito e a dignidade de que são merecedores. E ainda espero, nesse dia, vestir meu vestido florido para celebrar a vida, ao invés de prantear a morte. Mas ainda não... Ainda não.
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