A rotina de professora não tem sido fácil em meio à pandemia. Ser professora nunca foi fácil, e talvez por isso mesmo, eu ame tanto essa profissão. O distanciamento dói em mim e só faz aumentar a dificuldade em me manter conectada aos meus alunos, o que me traz certa frustração. Obviamente, que tenho recorrido a tudo que é jeito de restabelecer esse contato com eles, mas sabem, não é a mesma coisa. Definitivamente, não é.
Acho mesmo que sou uma professora sinestésica. Eu preciso olhar nos rostos deles após uma explicação, preciso me assegurar de que entenderam, e se não entenderam, eu preciso explicar de novo. Eu preciso ouvir suas histórias, mesmo quando elas fogem um pouquinho ao assunto da aula, preciso da energia deles.
Enfim, na falta disso tudo, estava eu diante de uma pilha de apostilas, carinhosamente preparadas para essa fase, corrigindo-as. Uma por uma, cada nome lido na capa gerava em mim uma lembrança muito amorosa e especial de cada um daqueles seres humanos incríveis com os quais convivo já há três anos.
Que gostoso lê-los novamente! Em cada texto, resgato à memória os traços estilísticos de cada um, relembro o formato da letra, o gosto ou não pela escrita.
Rafael. Ah... O Rafael... Adoro esse menino alegre e tímido, contador de causos, de quem a sala toda gosta, porque é simplesmente impossível desgostar de alguém como ele.
Morador da zona rural, entendedor da natureza, dos bichos e de toda essa beleza com que ele nos presenteia. Menino simples, autêntico, respeitoso. Consigo agora reproduzir em minha mente sua risada, risada gostosa.
Bom, estava eu corrigindo as atividades da apostila do Rafael, quando me deparo com um bilhete. Bilhete sério, que me faz imediatamente parar.
Sim, eu havia notado a coloração um tanto diferente daquela folha. Estava marcada, marcada de terra. E, sabem, confesso que apesar de bastante exigente com a limpeza e capricho deles, já tinha feito vistas grossas. É terra, afinal.
Mas Rafael fez questão de explicar-me o acontecido. E a cada palavra lida, era ele falando, ali na minha frente, com seus olhinhos assustados, explicando meio aflito, meio receoso o que se passara. Eu podia ouvi-lo:
“Prô, eu estava fazendo a lição, daí, sem eu perceber, meu cachorro Spayk pulou e acabou sujando a folha! DESCULPA. Não vai mais acontecer”.
Rafael, sou eu quem peço desculpa. Desculpa por não ter sido capaz de deixar o mundo melhor para sua geração. Desculpa por ter de seguir agora um protocolo que nos afasta e chateia seu cãozinho, que, tendo-o em casa, deve estar feliz demais e querer aproveitar o tempo consigo, brincando.
Transmita minhas desculpas ao Spayk também. Ele só queria brincar, distraí-lo um pouco da obrigação da escola, que por sinal, você entendeu muito bem.
Sabe, Rafael, a vida devia ser assim, tão simples quanto o ímpeto do salto do seu cachorro, tão plena e tão amorosa quanto ele. E de vez em quando, devia sim, ser permitido sujar alguns “documentos”. O que nós não podemos macular é nossa essência.
Devo dizer, ainda, que notei sua tentativa de apagar uma das manchas com corretivo... E você sabe, a professora não gosta muito de corretivo. Então, digo-lhe o seguinte: não era necessário! São manchinhas de amor, afinal.
Quando errar, e todos nós erramos, recomece, tente de novo, mas não se prenda ao medo que o erro causa, não tente a todo custo simplesmente apagá-lo, porque aprendemos com ele.
Hoje, mesmo a distância, mais uma vez, foi você quem me ensinou uma lição.
Obrigada!
Espero ainda conhecer o Spayk, que deve ser um ótimo cãozinho, já que o escolheu para seu cuidador.
Em nome do Rafael e do Spayk, eu agradeço a dedicação que cada um de meus alunos tem demonstrado nesse momento absurdamente atípico e difícil para todos nós. Agradeço aos seus responsáveis pelo apoio, sem o qual essa enorme “tarefa de casa” que nos foi confiada não seria possível.
Obrigada pelo privilégio de ser professora e aprender tanto com vocês, independente das circunstâncias.
0 Comentários