A primeira canção que aprendi tão logo cheguei ao Japão foi uma espécie de hino do país intitulada “Ue o muite arukou” (“Eu olho para cima enquanto caminho”).
A canção, amada também pelos estrangeiros, foi a primeira de origem asiática a alcançar o topo da lista Billboard Hot 100 nos Estados Unidos – o feito somente seria igu
alado em 2021 pelo grupo coreano BTS – e a ganhar, em solo americano, um Disco de Ouro no ano de 1963. Ainda que lá, a canção tenha recebido o famigerado título de “Sukiyaki” (“carne assada”), para que nossa estupidez ocidental pudesse degustá-la melhor.
Mas, títulos americanos à parte, o fato é que “Sukiyaki” foi merecidamente aclamada em todo o mundo. Para terem uma ideia, deixo aqui traduzidos os quatro primeiros versos de sua belíssima letra: “Ue o muite arukou (Eu olho para cima enquanto caminho) / Namida ga koborenai youni (E assim as lágrimas não cairão) / Omoidasu haru no hi (Lembrando-me dos dias de primavera) / Hitoribouchi no yoru (Pois hoje à noite sinto-me tão só).
Dizem que os compositores Rokusuke Ei e Hachidai Nakamura tiveram a ideia da canção após voltarem de um protesto contra um acordo nuclear entre os governos dos Estados Unidos e do Japão – frustrados por, mais uma vez, seu país ter se submetido aos interesses políticos dos ianques. Isso foi na década de sessenta, mas, infelizmente, a posição japonesa não mudou muito desde então.
A genialidade e sutileza dos compositores merecem, pois, todos os aplausos e reconhecimento. Não obstante, a face que ficou eternamente associada à canção foi a de seu intérprete, Kyu Sakamoto, que tinha apenas vinte e um anos de idade quando sua voz conquistou o mundo através de “Sukiyaki”.
Um jovem belo e carismático que se tornaria um verdadeiro superstar no Japão – com uma trajetória de sucesso semelhante ao nosso saudoso Paulo Sérgio –; Sakamoto casou-se com a igualmente bela e talentosa atriz Yukiko Kashiwagi, com quem teve duas filhas. Mas citei Paulo Sérgio porque, tal qual o brasileiro, Sakamoto também teve sua vida interrompida prematuramente: em um acidente da Japan Air Lines no ano de 1985. Hoje, portanto, 12 de agosto de 2025, data em que escrevo esta crônica, faz exatamente quarenta anos em que o mundo perdeu Kyu Sakamoto.
E, mais triste ainda, se o mundo perdeu um grande cantor, uma família perdeu um pai amoroso. Ontem mesmo, vi um documentário sobre a vida de Yukiko Kashiwagi e suas duas filhas nos dias seguintes ao acidente aéreo. E um dos momentos que mais me chamou atenção foi esta pergunta que ela teve de suportar de um inescrupuloso repórter: “E você por acaso ainda consegue crer que ele esteja vivo?”.
Isso, para mim, não é jornalismo, e sim vileza, crueldade pura. Uma família estava sofrendo, pelo amor de Deus, e o repórter me veio com esta!
Por isso, sempre digo: imprensa também é responsabilidade. E quem acha que fazer jornalismo é transformar sofrimento em entretenimento deve repensar o seu papel neste planeta.
Ajamos, pois, sempre com gentileza e ética em tudo o que fizermos; pois, no fim, será isso que restará na lembrança dos outros a respeito de nossa breve passagem por aqui.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quinhentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2024, seu livro obteve o Primeiro Lugar no Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) da UBE-RJ. Também em 2024, foi o roteirista vencedor do “WriteMovies Script Pitch Contest”, nos Estados Unidos. É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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