Suspiro
substantivo masculino
O expresso puro, sem açúcar nem adoçante, me lembrava de que a vida pode ser bem amarga às vezes. A torta integral de banana era o doce na medida certa e um lembrete de que o amargor não deve nunca reinar absoluto. A passada no café foi um agrado que me permiti, depois da notícia de que o conserto da tela do meu notebook iria ficar a bagatela de seiscentos reais.
Depois de maldizer todas as tecnologias e a fragilidade dos novos produtos, cuidadosamente idealizados para não durar, lá fui eu tomar meu expresso na cafeteria do supermercado. E ela estava lá, a torta de banana integral, que de verdade, nem sei se é tão saudável quanto soa, mas que é uma delícia é!
Sorvi lentamente ambos: cada gota do expresso, e cada colherada da torta. O primeiro durou pouco, devia ter pedido outro, pensei, afinal, adoro um docinho acompanhado de café bem amargo. Observei o entorno... Pessoas indo e vindo, com seus carrinhos e cestinhas, crianças desejosas de guloseimas e adultos concentrados nelas. A vida fluindo numa tarde de quinta, literalmente.
Terminei meu deleite vespertino, quase que um consolo pelo meu infortúnio, e lembrei-me de ir à padaria verificar se havia pão de fermentação natural. Havia fila, bem grande, por sinal. Mas também havia o pão e por um preço bem razoável, pois se trata quase que de uma iguaria. Pedi uma baguete e um salgado para o sobrinho. Atrás de mim uma moça, confesso que não havia reparado nela, até que, para minha surpresa, ouvi: – Nossa! Suspirei alto! E riu. Eu sorri.
E antes que eu pensasse em desvendar o porquê do suspiro, ela mesma emendou: – Tô tão cansada, e a escola acabou de voltar...
Imediatamente entendida a mensagem. Você é professora? Eu também! De quê?
E a conversa seguiu, ela de Arte, eu de Língua Portuguesa. Ambas cansadas, apenas uma suspirando, na fila do pão.
Eu não gosto de suspiro, doce demais, enjoativo. Melhor seria comer açúcar. Gosto de ser professora, mas confesso também estar cansada. Afinal, quem é que somos nós, professores, na fila do pão?
Sempre excessivamente cobrados, os heróis e os vilões de um país que ainda não fez seu dever de casa.
Tchau, tudo de bom pra você! Despedi-me da companheira de profissão, cujo nome nem sei. E segui com meu pão, meu salgado e algumas reflexões, além da chateação com o gasto inesperado.
Chegando em casa, tratei de tentar ligar meu notebook antigo para escrever esse texto, já que o conserto do novo, além de caro, ainda vai demorar. Depois, corri até o calendário da cozinha para ver quando será o próximo feriado. Suspirei também.
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