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Crônicas de um Sol Nascente

Tóquio barra-pesada

O Japão é basicamente um país seguro. Um lugar onde podemos caminhar tranquilamente pelas ruas a qualquer hora do dia. E, mesmo depois da meia-noite, talvez o máximo de “perigo” por aqui seja deparar-se com um grupo de jovens de cabelos coloridos conversando nas esquinas, ou então ver um trabalhador engravatado caminhando bêbado enquanto cantarola um sucesso de karaokê. Nada, portanto, que se compare aos tiroteios de nossas linhas vermelhas no Brasil. Ocorre, porém, que, apesar dessa indubitável placidez, o Japão, mais precisamente Tóquio, também tem as suas áreas de “risco”. E uma delas é o Kabukichou, distrito localizado em Shinjuku, esta por sua vez uma famosa área de entretenimento em Tóquio.

Já estive lá, em Kabukichou, vale registrar. Na ocasião, minha esposa e eu fomos não para vivenciar o comentado perigo do local, mas sim para desfrutar de um maravilhoso “festival de comerciais”. Naquela madrugada de sábado para domingo, estava sendo exibida em um cineminha local uma série de comerciais premiados e oriundos de todas as partes do mundo: um mais criativo que o outro. Adoramos, vale aqui também esse registro. Porém, ao sair do cinema, trememos. Primeiramente, de frio (era dezembro); mas também porque vimos uma Tóquio, digamos, um pouco mais selvagem. Por exemplo, prostitutas e rufiões nas esquinas chamando para as “casas de massagem” – um, mais ousado, até ignorou minha esposa ao lado, abordando-me com um folheto no qual havia um “cardápio” de oppais (seios) para todos os gostos. Levamos na esportiva, claro, e, em seguida, agradecendo e recusando a oferta do carismático malandro, continuamos com a nossa caminhada de volta à estação.

Durante o percurso, aliás, as cenas mais tristes que vimos foram aquelas protagonizadas por adolescentes (algumas vestidas de estudantes) vomitando, bêbadas, nas calçadas. Mas elas, ou eram amparadas por outros jovens de sua idade, ou ficavam ali, estendidas, sem sofrer, felizmente, qualquer violência física – pelo menos, não ali nas ruas, perante o mundo inteiro.

E, quando escrevo “o mundo inteiro”, a hipérbole tem um significado quase que literal. Pois turistas, vindos de todas as partes do planeta, simplesmente adoram passear pelo Kabukichou. Outro dia mesmo, a televisão japonesa fez um especial sobre o lugar. E, no referido programa, toda vez que um estrangeiro era abordado, o repórter explicava sobre o perigo da área para então concluir a entrevista com a seguinte pergunta: “Você não tem medo de caminhar por aqui?”. A resposta de que mais gostei veio de uma turista mexicana. Arregalando os olhos, ela indagou de volta: “Caramba! Kabukichou es peligroso?”. Uma surpresa natural para quem provavelmente já passou pela Cidade do México, onde os cartéis costumam decapitar os inimigos.

Aliás, acredito que eu, sendo filho de Manaus, possivelmente tivesse uma reação não muito diferente a da entrevistada mexicana. Algo do tipo: Kabukichou o quê?! Deixa de “leseira” que eu vim do inferno verde, seu abestado!

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

 

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