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SUB-VERSÃO

Um ano

A água. O cheiro da água tocando a terra. Essa é a lembrança olfativa que mais me agrada. Desde criança, amo o cheiro da chuva, que só é cheiro de chuva, quando do místico encontro da água com a terra. Céu e terra unindo-se outra vez, o cenário da criação recriando-se diante de nossos olhos e narizes atentos.

Ah, como eu gostava de estar à varanda de casa, quase sempre na companhia de meu pai, esperando por ela: a chuva. Ainda me lembro de sentir seu anúncio no vento. O vento que antecede a chuva é diferente de todos os outros, é um recado claríssimo do que se aproxima. Ele é um arauto imponente anunciando que ela vem, e quando ela finalmente chega, é feito servo obediente e ciente de seu lugar, que ele subitamente se retira.

Meu pai sempre sabia quando ia chover, seus olhos de um azul diferente até mudavam de cor. Sim, a chuva se anunciava nos olhos dele. E era com alergia quase pueril que esperávamos, eu e ele por ela. Quando não nos entregávamos a ela, o que irritava mamãe, sempre zelosa pela limpeza da casa, onde não faltavam amor e zelo.

O cheiro da terra molhada ainda me encanta. A lama, não. Houve um tempo em que ela fora minha matéria prima para muitas brincadeiras, mas quando a gente cresce e as brincadeiras dão lugar à seriedade imposta pela vida, muita coisa perde a graça ou simplesmente se ressignifica. Foi assim com a lama, é ainda assim também com a chuva.

Não, a lama não tem odor agradável, nem me remete ao cheiro de terra e chuva. Ao menos aquela lama, não. Aquela lama cheira à morte. A lama que levou meu companheiro de esperas por chuvas.

Não o vi aquele dia, e me dá um aperto pensar nisso. Talvez pudesse ter lido em seus olhos o presságio do que estava por vir. De certo que o azul se modificara. Não foi a chuva, mas aqueles olhos eram capazes de anúncios dos mais diversos. Aqueles olhos que eu queria ter visto ainda mais uma vez, antes que fossem levados junto dele, por aquela lama maldita.

Quando aquela barragem se rompeu, e eu nunca vou me esquecer daquele dia enquanto viver, não levou só meu pai, levou para sempre a esperança que aprendi a enxergar olhando para aqueles olhos camaleões. Aquela lama maldita levou parte do que fui e definiu quem sou hoje.

A chuva, antes objeto de minha veneração, é hoje como o soar tétrico daquela sirene, não passa de um anúncio de morte. E não tenho mais os olhos dele para me acalmar, como também não tenho mais a ingenuidade de esperar pela chuva, como quem espera por uma dádiva.

Mas ainda espero por meu pai. E tenho plena consciência do absurdo insano que essa frase, dita assim, pode representar, mas o fato, é que ainda espero por ele, como quando criança esperava pela chuva, como esperávamos juntos pela chuva, lindamente anunciada pela mutação em seus olhos e pelo arauto vento.

Espero por ele da varanda que já não há, da casa que já não há, segurando entre os dedos uma foto enlameada de tudo o que fomos. Espero por ele, com a fúria bendita e insana de que só o amor é capaz.

Quero vê-lo levantar-se daquela lama, quero poder, com meus dedos trêmulos, limpar-lhes os olhos de toda aquela lama. Quero o azul e o verde, e todos os tons de seus olhos de novo. Quero presságios de boas novas neles refletidos.

Um ano já se passou e ainda espero. Espero por mim, afinal, porque minha alma ainda está presa naquela maldita lama!

 

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