Fotos: Shel Almeida/Jornal Em Dia
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Cultura

Um artista no Centro Cultural

Recém-reformado e com menos de um ano de uso, o Centro Cultural Teatro Carlos Gomes hoje abriga a Biblioteca Municipal e a Secretaria de Cultura e Turismo. Mesmo com menos intensidade do que é esperado, vide o momento de restrições, há um trânsito diário de pessoas por ali, em especial, funcionários de ambas as repartições que trabalham no local. Artistas também já usam o espaço, mesmo que, ainda, timidamente. 

E, no meio dessa movimentação cotidiana, há alguém que une essas duas características em uma só, a do funcionário público e a do artista. Fernando Augusto Mucedola Mello tem 40 anos e, há pelo menos 20, é servidor concursado da Prefeitura. Começou na Secretaria de Serviços, em trabalho na rua. Com o tempo, seu talento e gosto pela arte foram sendo revelados e descobertos. Hoje, não é possível imaginar outro lugar para Fernando estar, enquanto funcionário municipal, que não seja na Secretaria de Cultura ocupando, literalmente, o Centro Cultural. 

A ideia de ocupação, quando se fala em arte, se refere à morada temporária, um período de tempo em que um artista ou um coletivo estará presente em um local, como um teatro ou uma galeria, por exemplo. O sentido de ocupar, neste caso, é o de preencher com arte. E é isso que, mesmo sem perceber, Fernando está fazendo: a sua própria ocupação. 

Fernando foi um dos artistas convidados pela secretária Vanessa Nogueira a pintar a
caixa d’água em frente ao Centro Cultural

 

ARTE DA INVENCIONÁTICA

Desde que deixou o Centro Cultural Geraldo Pereira, no Matadouro, onde passou a trabalhar assim que saiu da Secretaria de Serviços, Fernando já realizou, pelo menos, quatro trabalhos em artes visuais, espalhados pelo espaço do Carlos Gomes. Ele é um dos artistas convidados a pintar a caixa d’água, localizada na praça que divide a entrada do Centro Cultural com o Jardim Público. Há também um latão, no pátio anterior ao saguão, que foi pintado por ele. Aliás, eram dele os diversos latões que podiam ser vistos, uns anos atrás, pelas ruas e praças da cidade. Eles tinham pinturas de pontos históricos e foram muito comentados na época. 

Outro trabalho realizado por Fernando foi a pintura de uma das paredes da Secretaria de Cultura. O projeto é da assessora de departamento Bibi Cruz, com execução dele.  E, no momento, ele está realizando uma nova pintura, desta vez na sala onde fica a Biblioteca Infantil, logo na entrada do prédio. 

“Eu vim pra cá, a princípio, para ajudar com a mudança da biblioteca. Então, a secretária Vanessa me convidou para participar da pintura da caixa d’água, com outros artistas e uma coisa foi levando à outra. Eu sou muito da ‘invencionática’, como diz Manoel de Barros. Gosto de improvisar. Eu sempre gostei de arte e, de repente, ter a oportunidade de mostrar um pouco do que faço, em um prédio como esse, como uma forma de trabalho, poxa, é muito gratificante”, diz. 

Discreto, pouco fala de seu trabalho e, quando questionado, deixa transparecer a timidez. Tal como o poeta que cita, só usa as palavras para compor seus silêncios. Como quase toda pessoa que nasce com um talento natural, acha que é exagero de quem o admira. Modesto e, por isso, carismático, ele é querido por quem o conhece e convive com ele. 

“O Fernando é um funcionário de carreira que prestava serviço no Centro Cultural Geraldo Pereira, mas sempre esteve à disposição da secretaria para colaborar nos demais setores. Sendo assim, percebi a aptidão pela arte e a sensibilidade de um grande artista. Ele já ajudou a restaurar peças no museu, criou cartões de boas-vindas para o Teatro Carlos Gomes, entre outras maravilhas. Despertar o artista que ele é só tem a valorizar ainda mais nossa cidade. É uma joia que está sendo colocada à mostra e é uma honra para a nossa cultura”, enaltece a secretária das pastas de Cultura e Turismo, Vanessa Nogueira. 

“Falar do Fernando é fácil, é só pensar em arte, em simplicidade, em bom gosto e em motivação. Como servidora pública há 29 anos, em mais de 20 no setor da cultura, é motivo de orgulho ter, hoje, um profissional dessa qualidade em nossa equipe. Agora, o Fernando está encaixado no lugar certo, sob medida para ele.  Além de nos presentear com sua arte e talento, pode desenvolvê-la com mais possibilidades e se aprimorar cada vez mais aqui no Centro Cultural Teatro Carlos Gomes, um lugar de sonho para um profissional que sonha arte”, completa a assessora de departamento, Ana Lúcia Pereira. 

A colega Bibi Cruz projetou e Fernando executou o projeto que traz cor para a Secretaria de Cultura

 

AOS MESTRES, COM CARINHO

Fernando é formado em Educação Artística pela Fesb (Fundação de Ensino Superior de Bragança Paulista). Além do poeta matogrossense que o inspira no fazer da arte, tem também outros mestres que o ajudaram a moldar o artista que é hoje. Entre eles, os antigos professores Edson Beleza, de Atibaia, e Hilton Mercadante, de Bragança. Mas, o grande mestre do dia a dia, que foi o primeiro a perceber seu potencial, e o impulsionou a se dedicar cada vez mais, inclusive indo cursar uma faculdade da área, foi o saudoso colega de trabalho Paulo Felice Filho, o Sansão, como era conhecido. “Ele já fazia trabalhos de pintura lá na Garagem Municipal. Fazia de tudo, até as placas de trânsito, você olhava e achava que era adesivo impresso, mas tudo trabalho dele. Um dia, ele chamou algumas pessoas para ajudar em um serviço maior e percebeu que eu gostava e me convidou para continuar ali, trabalhando com ele nisso. E eu aprendi muito com ele nesse período. Nesse processo, eu tive a oportunidade de estudar e fui. Foi quando conheci outros mestres”, conta.

Hoje, Fernando é um multiartista. Nas artes visuais, além da pintura, ele também faz esculturas. Se inspira em figuras conhecidas e amigos próximos, para criar. A mais recente foi feita por encomenda, uma Frida Khalo. Há também um mestre de maracatu, inspirado no amigo Heri Teófilo, um São Francisco, um contrabaixista, e um violeiro. Mas os destaques são dois trabalhos em metalinguagem: um pintor e sua tela e um escultor, que esculpe a figura de um anjo. 

Como músico, toca baixo e guitarra, em três diferentes bandas do underground bragantino: Deskraus, Caminho de Rato e Óleo Sobre Tela.  Quando trabalhava no Geraldo Pereira, participava das aulas de violino e canto. No Carlos Gomes, vai acompanhar, tocando baixo acústico, uma orquestra jovem que está sendo formada e deve usar o espaço para ensaios. 

Por enquanto, os trabalhos realizados por ele no Centro Cultural estão sendo pensados em conjunto com a secretária. Mas ele ainda sonha em poder executar uma obra totalmente autoral, ali dentro. Para ele, não é apenas a possibilidade de poder deixar sua marca, por meio da arte, que o anima e motiva. Mas também poder conviver com os artistas. Ele ajudou a montar as exposições presentes no espaço e, estar perto dos autores das obras, entre eles, mais um mestre, Nirceu Helena, lhe proporcionou a troca de experiências e, sobretudo, o aprendizado. Por isso, é ele quem acompanha o público nas visitas monitoradas às obras. Para isso, irá se aperfeiçoar no curso de formação de mediadores culturais, da Casa Lebre. 

“Eu fui convidado a fazer esse trabalho pelo meu interesse sobre os artistas e sobre a história do lugar. E, para mim, foi algo que me agregou muito. Cada um deles veio e me falou sobre seu trabalho, sobre os quadros que estão aqui. Poder estar ao lado do senhor Nirceu, montando a exposição e conversando, fui aprendendo muito, foi algo muito construtivo. Eu me entrego, faço tudo com dedicação. É uma satisfação tão grande saber que tem um pedacinho do meu trabalho aqui, que tenho apoio para poder mostrar o que eu faço. Pensar que esse é um prédio que foi levantado por causa da cultura e hoje eu poder estar movimentando isso aí dentro, é muita coisa boa junto. É incrível”, finaliza.

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