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SUB-VERSÃO

UM CORPO

“E tropeçou no céu como se ouvisse música
E flutuou no ar como se fosse sábado
E se acabou no chão feito um pacote tímido
Agonizou no meio do passeio náufrago
Morreu na contramão atrapalhando o público”.

Construção – Chico Buarque de Holanda

Era apenas um corpo pegando fogo. Um corpo entregue às chamas. E um corpo incendiado é o que em meio à loucura da cidade?

Quem é que para o curso acelerado da vida para prestar atenção a um corpo pegando fogo? Ele não devia estar pegando fogo. Ele nem mesmo devia estar ali. Ocupa um lugar que não lhe pertence, afinal, na cidade, não há lugar para mais um corpo, esteja ele incendiando ou não.

Um corpo ardendo em chamas em plena estação do metrô. Apenas mais uma notícia trágica preenchendo os noticiários da noite.

Mas e antes de se tornar um corpo incendiado, o que teria sido? Qual o seu nome? Quais os seus sonhos? A quem amou na vida?

Aquele corpo pertencia a uma pessoa, um ser humano, cuja alma ocupou seu lugar nesse mundo cruel habitando aquele corpo.

A notícia anunciada pelos telejornais da noite, afinal, era mentirosa. Não, não foi uma tragédia, foi um crime, e nós o cometemos.

Mas o morador de rua ateou fogo contra o próprio corpo, em pleno metrô, no espetáculo mais luminoso e assustador que podia haver. O metrô sequer parou para assisti-lo. Aliás, nunca o fizera. Sua existência sempre passara despercebida aos olhos egoístas dos transeuntes apressados.

Um corpo, só isso. Mais um corpo indesejado, que a cidade macera e depois cospe no asfalto quente.

Por fim, fizera-se notar. O fantasma do homem exigiu, num último heroico ato, que a cidade finalmente o notasse. Não deu para disfarçar, ou simplesmente varrer para debaixo do tapete. Ele estava lá, ardendo, levantando labaredas, em plena estação do metrô. Agora, a cidade não podia mais ignorá-lo.

Um corpo, um homem, um ser humano se desfazendo em fogo no meio da selva de pedra.

Como não fomos capazes de enxergá-lo antes? Antes que ele, assumindo de uma vez por todas o direito de ser notado, ateasse fogo contra o próprio corpo.

Nós o matamos, com o calor insuportável da nossa indiferença. Só mais um corpo, anônimo, marginalizado, desprezado e malquisto pela cidade.

E a cidade cinza ficou ainda mais cinza, depois desse seu espetáculo. Mas quase ninguém notou. Os cinzas e as cinzas se confundem afinal, na cidade grande. Na cidade grande, onde pessoas não passam de corpos, ainda que incandescentes como vaga-lumes.

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