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Olhar Social

Uma educação transformadora

Para quem comunga a fé cristã – ainda que haja referências semelhantes em outras crenças – o amor incondicional é o princípio regente das relações humanas. Pede Deus que o amemos acima de todas as coisas e também amemos “ao próximo como a ti mesmo”, conforme o Evangelho de Mateus 22:37–39.

Amor que se materializa em atos de solidariedade, empatia, tolerância, zelo pela vida – todas as formas de vida e de todas as pessoas – não só de quem gostamos ou pensam como pensamos; pode manifestar-se ainda expressão de civilidade e respeito ao próximo, em especial dada a realidade brasileira tão diversificada e complexa – com abissais diferenças culturais, religiosas, territoriais, raciais, de gênero e classe; algo que parece cada vez mais difícil e desafiador num mundo onde impera o individualismo, ascendem práticas e narrativas que atentam contra os supostos indesejáveis, e se pregam que os seres superiores são implacáveis e escolhem a quem amar.

Quem atua no campo dos direitos humanos reconhece o quão doeu na alma a eleição do ex-mandatário da República em 2018 no Brasil. Além do rastro de destruição explícita no campo das políticas públicas, estímulo a violência, má gestão e autoritarismo imposto no grito, ficou o legado de uma espécie de crise humanista, civilizatória, na qual impera a indiferença, relações violentas, inverdades, o negacionismo e a criação de uma espécie de realidade paralela.   

No mundo virtual, por exemplo, crimes envolvendo discurso de ódio têm aumentando substancialmente. Foram mais de 74 mil denúncias só no ano passado, conforme a Central Nacional de Denúncias de Crimes Cibernéticos da Safernet, organização de defesa dos direitos humanos em ambiente virtual.

No topo da lista, estão os crimes de xenofobia, que seria o preconceito contra outro povo; a intolerância religiosa e misoginia ou opressão contra as mulheres. Por trás das telas, onde a terra parece sem lei, esses e outros crimes – que se somam ainda ao racismo e LGBTfobia – parecem contar com a impunidade e com certa naturalização ou apatia por quem não se sente atingido.

Não é segredo pra ninguém as inúmeras falas e atos preconceituosos, repudiáveis e criminosos do ex-presidente do Brasil – que geriu o país entre 2018 a 2022, mas cuja conduta é de longa data – o que pode ter contribuído para uma espécie de libertação das pessoas serem o que de fato são.

Nosso país, em suas entranhas e em suas estruturas, ainda mantém uma mentalidade mesquinha, escravocrata, eurocêntrica, preconceituosa e moralista. Não à toa, vimos o quão desprezível a vida humana foi tratada durante a pandemia; e vemos expoentes do neofascismo e extrema-direita ganharem espaço no Congresso Nacional, nos meios de comunicação e no cotidiano da vida.

É imperativo reconhecer que a ascensão do ódio, apologia à violência, desprezo pela vida, intolerância e preconceito aos diferentes de si não é algo normal e nem pode ser ignorado ou naturalizado. Situações semelhantes levaram a regimes nazifascistas, que exterminaram milhões de pessoas.

Na contramão, vale todo esforço que identifique e puna os “anônimos” do mundo virtual, bem como práticas criminosas que prosperam no cotidiano; vale insistir no diálogo, talvez o único ainda capaz de desconstruir mitos e desmontar seitas; e essencialmente investir em políticas educacionais transformadoras e comprometidas com a cidadania, direitos humanos e justiça social.

Não é demagógico afirmar que a educação é capaz de mover montanhas; de permitir que as pessoas, para além do acesso ao conhecimento letrado, crítico e reflexivo, possam se tornar pessoas melhores, enxergar e respeitar o mundo ao seu redor, o que vai muito além de si. Já dizia o mestre Paulo Freire “se a educação sozinha não transforma a sociedade, sem ela tampouco a sociedade muda”. 

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo

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