É isso que sou, segundo o Excelentíssimo Sr. Jair Messias Bolsonaro, presidente do Brasil. Ah, eu insisto em usar o pronome de tratamento, desculpem-me. Minha rebeldia se manifesta também e principalmente através da linguagem.
E já que citei a linguagem, devo registrar aqui minha indignação pela escolha do termo utilizado por Jair para se referir aos manifestantes que ocuparam as ruas de todo o país, no último dia 15.
Parece-me muito leviano, para não usar outro termo, chamar seus compatriotas, quando estes estão nas ruas lutando pela Educação, de idiotas. Aliás, a educação de Jair é mesmo questionável. Seu modo de agir se parece muito com o de alguém claramente frustrado, desinformado e que, portanto, vocifera impropérios a fim de assustar seus interlocutores.
Ah, Jair, grosseria não nos assusta, não. O que nos assusta é a ignorância, o “status quo”, o desemprego, a desigualdade social, a pobreza. Até mesmo os cortes na Educação não nos assustam, se vindos de você. Não nos assustam, mas nos causam indignação. Daí as multidões que você, com sua gentileza primorosa, chamou de “idiotas úteis”...
A propósito, gostaria de conduzir, você, leitor, a uma reflexão linguística acerca dos significados da palavra “idiota”.
A palavra “idiota” vem do grego “idiótes”, e significa pessoa leiga, sem habilidade profissional. Em sua acepção original, designava o cidadão privado, aquele que se dedicava somente a assuntos particulares, em oposição ao cidadão que ocupava algum cargo público ou participava de assuntos de ordem pública.
Uma pausa. Então, quer dizer que os milhares que saíram às ruas são leigos, que não se preocupam com assuntos de ordem pública? Faz-me rir.
Mas a reflexão continua, visto que a língua é um organismo vivo e está sempre em constantes mudanças.
O termo evoluiu e ganhou ares pejorativos, vindo a designar a pessoa ignorante, simples, sem educação.
Será que foi isso que Jair quis dizer? Estaria ele, num ato falho, referindo-se a si mesmo? Afinal, os que saíram às ruas pediam por educação.
Acredito nem ser necessário me ater muito ao último significado que essa palavra dita pelo presidente pode ter, pois se trata de uma deficiência.
Será que o presidente sabe disso?
O que ele sabe, afinal?
O que eu sei é que sou assumidamente uma idiota útil, e enquanto houver qualquer um tentando atingir a Educação, eu vou resistir.
Como idiota útil que sou, não aceitarei cruzar os braços diante do aparente triunfo da ignorância sobre o conhecimento. Não vou desistir da missão e do desafio que é ser professora num país onde um mandatário claramente despreparado deseja transformar meus alunos em mão de obra barata. Não!
Aliás, para finalizar, vamos combinar que é infinitamente melhor ser uma idiota útil, que um idiota inútil, se é que vocês me entendem...
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