
O Prêmio Mundial da Alimentação (equivalente a um Nobel), o maior prêmio internacional no campo da Agricultura, foi concedido a uma pesquisadora brasileira pela fundação norte-americana World Food Prize.
A engenheira agrônoma e cientista Mariangela Hungria da Cunha passou quarenta anos pesquisando uma alternativa para o uso tradicional e em larga escala de fertilizantes e defensivos químicos na agricultura extensiva.
Seu objetivo: melhorar o modo de produção da agricultura extensiva. Sua proposta: combater pragas e manter o solo fértil substituindo na lavoura o uso intensivo de produtos químicos por produtos naturais. Trata-se de um enorme desafio, econômico inclusive, tanto para os produtores como para a indústria de fertilizantes, com reflexos também na indústria de alimentos.
O que muda, quem ganha e quem perde com a substituição de produtos químicos por produtos biológicos no tratamento da terra... para manter a terra saudável, fértil, rica, naturalmente viva! E produzir assim mais e melhores alimentos?
O prêmio homenageia “indivíduos que melhorem a qualidade e quantidade ou disponibilidade de alimentos em todo o mundo” – uma questão da maior importância para o Brasil, considerado “o celeiro do mundo”, com uma significativa extensão de terra útil cultivável.
Por isso, a forma de fixar o nitrogênio no solo – de modo químico ou biológico – faz toda a diferença. Estima-se que a pesquisa da cientista, realizada em parceria com a Embrapa Soja, já revolucionou a agricultura brasileira. E que os novos procedimentos foram aplicados em “mais de 40 milhões de hectares, economizando aos agricultores até US$ 25 bilhões por ano em custos de insumos e mais de 230 milhões de toneladas de emissões equivalentes de CO2 por ano”.
Considerada a “mãe da microbiologia”, Mariangela, ao completar 67 anos, vê seu empenho e convicção recompensados. Contra toda a descrença ao seu redor, jamais teve dúvidas: “eu acreditei naquilo que estava fazendo e perseverei”, afirmou. Para ela, o papel das mulheres na agricultura, e da agricultura no campo da ciência, merecem mais reconhecimento.
Para os estudiosos, é preciso trabalhar os quatro pilares da “segurança alimentar” – disponibilidade, acesso, utilização e estabilidade.
Segundo o IBGE, a insegurança alimentar afeta 4,1% da população brasileira, ou seja, oito milhões de pessoas ainda sofrem de fome no país. Apesar da significativa melhoria na situação, o Brasil ainda está no “Mapa da Fome” da ONU, que contabiliza a má ou insuficiente nutrição também.
Por que o país ainda está no “Mapa da Fome” se o celeiro do mundo, como dizem, está aqui no Brasil?
Substituir fertilizantes e defensivos químicos na lavoura por organismos naturais específicos, como demonstrou a pesquisa da cientista, é um caminho para obter alimentos mais saudáveis e diminuir o custo de produção de grãos. Algumas fazendas em Bragança Paulista já aderiram à nova modalidade de cuidar da saúde da terra e dos alimentos produzidos.
Esses novos produtos biológicos, que já se encontram no mercado, não chegam ainda a substituir completamente os insumos químicos, mas abrem caminho para uma nova forma mais integrada e natural de plantio em grandes extensões, segundo o agrônomo e professor Eidy Sassahara, adepto da Agricultura Regenerativa.
Cerca de 55% dos produtores de soja e 6% dos produtores de frutas e hortaliças adotam o novo procedimento. E novas empresas vão surgindo para atender a demanda de produtos biológicos para o campo.
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