O poema do escritor uruguaio Eduardo Galeano nos lembra que a “a utopia está lá no horizonte. Me aproximo dois passos, ela se afasta dois passos. Caminho dez passos e o horizonte corre dez passos. Por mais que eu caminhe, jamais alcançarei. Para que serve a utopia? Serve para isso: para que eu não deixe de caminhar”.
A palavra em si é de origem grega e foi concebida pelo humanista inglês Thomas Morus, que viveu no século XV, que na ocasião idealizou uma ilha, onde o sistema de governo era perfeito. Ao juntar as partes “u” e “topos”, o termo é traduzido como “um lugar que não existe”, vislumbrado a ser construído, cujos poetas, filósofos, escritores foram lhe dando sentido ao longo da história.
Utopia, que em sua essência, permite sonhar com algo; que de modo irrestrito leva a idealizar ou mesmo fantasiar que uma outra sociedade, por exemplo, é possível, o que nos colocaria como protagonistas nessa construção e nos permitiria enfrentar as lutas diárias e permanentes para alcançá-la.
Lutas e resistências necessárias numa sociedade com diferenças e desigualdades estruturais, que reproduz violências e violações cotidianas!
Uma espécie de farol, que ilumina os passos e nos coloca em movimento em busca do que defendemos. Os quase infinitos desafios e limites não abalam as forças existentes, que se alimentam no horizonte de dias melhores, da caminhada diária, que vislumbram outro futuro. Talvez nem estejamos nesse mundo para usufruí-lo, mas alegra-nos sentir que ajudamos a conquistá-lo!
Uma felicidade plena ou sociedade perfeita, que nos incomoda e tenciona a aceitar as coisas como dadas, naturais ou como estão; inquieta a questionar a realidade existente e provoca a desejar mudanças. Ora, dizia o poeta brasileiro Mario Quintana: “Se as coisas são inatingíveis... Não é motivo para não querê-las... Que tristes os caminhos, se não fora; a presença distante das estrelas!”.
Que miseráveis seríamos nós se não pudéssemos contar com a gentil presença das estrelas em nossa travessia?
Utopias que, por vezes, geram sucessão, mas também se renovam a cada geração; são legados longínquos, que constroem memórias e lembram o quão a luta é árdua e morosa; onde os pares se reconhecem e somam forças na travessia da vida...
Utopias que não se esgotam, não se dão por vencidas e não aceitam a derrota, ainda que contextos gradativos de incivilidade e desumanidade desmantelem a abalem suas estruturas.
Utopias que alimentam sonhos e fantasias, dão sentido à vida e a alma; são geradoras de rebeldia, inquietudes e desassossegos, que movem montanhas e enfrentam dragões; idealizam um mundo onde não haja espaço para sua destruição e exploração desenfreada; que enfrenta a desesperança, o egoísmo e a indiferença tão em alta nos últimos tempos!
Tempos que atentam contra as utopias, que presam pela apatia dos jovens rebeldes e desprezo dos demais. Rebeldia que outrora queria mudar o mundo; hoje está submersa num mundo onde se tenta sobreviver. Sobrevivência vivida por milhares de pessoas, onde sonhar não cabe em seu mundo, porque o mundo impõe seus limites.
Utopia, onde estás?
Sua presença é fundamental, imprescindível e necessária a cada ciclo da vida, onde se renovam as esperanças – inspiradas no esperançar do educador Paulo Freire, que atribui ao termo a ideia de levantar-se, de ir à luta – em prol do que se defende, acredita, almeja; lugar que permite respirar um ar puro, onde as estações do ano voltam a compor suas fases circulares e a brisa de cada árvore é geradora de um frescor envolvente, que alimentam os sonhos ao longo da caminhada...

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.
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