Quando esta crônica for publicada, já estaremos vivenciando as emoções de mais uma Copa do Mundo da FIFA. E, claro, o Brasil, como em todas as edições desde 1950, é um dos grandes favoritos a levantar a taça. Isso se não houver algum acidente de percurso (tipo: rossis, caniggias, zidanes ou um blitzkrieg alemão). Mas, caso haja, desta vez, novamente um imprevisto que leve o nosso canarinho a voar mais cedo para casa, já sabemos o verdadeiro motivo por trás do aparente fracasso: vendemos mais uma Copa.
Fico até imaginando a cena. Chegamos às quartas de final, mas, já sem grana após tantas churrascadas e noitadas com odaliscas, Neymar & Cia. decidem: hora de entregar o ouro.
― Quem paga mais? ― grita, numa roda de samba, o camisa dez do PSG. ― E, percebendo que Messi já retirava a carteira do bolso, adverte: ― Usted no, parça! Já te vendemos outro dia mesmo uma “copa américa” a preço de banana. Duas vezes, vai dar na vista! Espera a próxima edição! Afinal, se até o Daniel Alves usando bengala foi convocado este ano, por que não você em 2026? Espera mais um pouco... Próximo!
É quando Mbappé faz uma proposta: sendo, porém, solenemente ignorado pelo menino Ney. Começa então uma troca de sopapos entre os dois astros mirins do PSG, confusão esta que só é interrompida quando todos se dão conta de que Thiago Silva está de novo chorando ao som do hino nacional.
Nisto, Neymar vê o presidente da FIFA aproximar-se com uma maleta.
― Toma, bambino! Entrega questo mondiali pra mia Itália.
― Ué, seu Infantino! Mas a Itália nem se classificou!
― Detalhe insignificante. A gente dá um jeito e coloca la Squadra Azzurra no lugar da Alemanha, que só tem falado ultimamente em direitos humanos, protestos e tal...
E Neymar, titubeando:
― Não sei, seu Infantino...
E o presidente, dessa vez com um sorriso irônico:
― Ma che, bambino Ney! Afinal de contas, não serei o primeiro italiano fanfarrão a quem você fará um favor! Se até vídeo você fez apoiando o Bol...
― Psiu! O senhor vai ficar me lembrando disso toda hora? ― E, em seguida, num ataque de fúria: ― Todo mundo só quer me crucificar! Sou um incompreendido! Tenho tanto amor por minha pátria e ninguém consegue ver que...
E Infantino, ignorando as lamúrias de Neymar, olha outra vez ao redor e depara-se com: Thiago Silva ainda chorando, Paquetá ajeitando o penteado e Daniel Alves queixando-se de dor nas costas. Somente Pedro treinava chutes a gol...
Foi quando o cartola italiano pensou com os seus botões dourados: “Que beleza! Nesta Copa, eles, sempre tão careiros, não têm nada pra vender!”. E, fechando a maleta, vai até o CT da Argentina.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residindo no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores do Rio de Janeiro, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (ASES).
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