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Olhar Social

Vamos à escola!

Um dos grandes sucessos na TV aberta, a “Escolinha do Professor Raimundo” – quadro humorístico protagonizado por Chico Anysio, reeditado sob comando de seu filho, Bruno Mazzeo – dava mostras do cotidiano em uma sala de aula: das dificuldades e desafios vivenciados pelo docente à diversidade de histórias enfrentadas pelos alunos.

“Vamos à escola! Toda hora é hora...Vamos à escola! Lá se aprende a viver...” dizia a música de abertura do quadro, nos fazendo uma espécie de convite à aula, ou, mais que isso, nos fazendo lembrar do papel da escola, por meio de uma fina ironia, aliada ao humor.

Enquanto uma importante conquista do Estado Moderno para o aprendizado do conhecimento letrado, a escola é – e deve ser – lócus privilegiado de sociabilidade humana que congrega diferentes culturas, realidades, experiências; estimula talentos e potencialidades das e dos estudantes; é reconhecida ainda como espaço de proteção, que identifica e denuncia violência e violações enfrentadas por crianças e adolescentes no universo familiar.

Isso cai por terra com o projeto de lei que regulamenta o ensino domiciliar (homeschooling) – reconhecimento legal da família educar seus filhos em casa: da Educação Infantil ao Ensino Médio – recentemente aprovado na Câmara dos Deputados, que segue agora para apreciação do Senado Federal. Quando, ao contrário, num período quase pós-pandêmico, deveríamos somar forças para retomada das atividades vias a um suposto “normal”.

Algo voltado a estruturar e fortalecer a escola na retomada de suas tarefas, que contasse com a acolhida de todos, em especial dos estudantes; fomentasse diálogos e redes de apoio e solidariedade face ao atual contexto; imprimisse busca ativas dos evadidos e órfãos da Covid-19, identificando e tendo condições de lidar com o abandono escolar, desistência ou falta de condições efetivas de manter os estudos.

Ir à escola – mais do que a vontade ou não dos pais – é um direito da criança e do adolescente, que deve ser assegurado pelo Estado e por toda uma sociedade. Os pais são progenitores de seus filhos, não seus donos, que irão livrar a prole do mal imaginário e companhias a contragosto de suas escolhas e desejos.

Estar, conhecer e lidar com o diferente e com as diferenças é parte e deve compor o processo de formação para a vida adulta, algo que vai além do conhecimento letrado. É na escola onde o debate acontece, as amizades se formam, o espírito coletivo nasce, a empatia se aflora, a solidariedade ascende, o potencial floresce, o respeito e a tolerância são exercitados... 

Os argumentos em defesa da educação domiciliar – baseados, em grande parte, em estigmas religiosos ou político-partidários – não se sustentam e caminham muito mais aos interesses de uma sociedade que zela pelo individualismo e egoísmo exacerbado, capitaneado pelo mercado de olho num filão rentável que lhe reserva bons investimentos; do que, de fato, nas inverdades e insanidades propagadas como um espaço que reproduz ideologias esquerdistas, de gênero, ou qualquer outro assunto que países desenvolvidos debatem; e que deveriam ser vistos como parte do processo de desenvolvimento da própria sociedade.

É sintomático pautar um projeto como este que propõe manter as crianças e adolescentes em “bolhas”, ao invés de lhes dar asas. Asas que lhe permitam voar alto e voar longe, já que isso poderia tensionar as bases de uma sociedade, como a brasileira, extremamente retrograda, conservadora, racista, machista e estruturalmente desigual. Além de ser parte de ações mais amplas que comungam com a ardilosa destruição e desmantelamento do ensino público.

A soma de nossos esforços é para que a escola seja reconhecida como espaço de sociabilidade, que forma cidadãs e cidadãos para o mundo; lócus de promoção da educação em direitos humanos; local de acolhida e proteção, que conta com profissionais qualificados e reconhecidos – inclusive com assistentes sociais e psicólogos, cujas presenças requer ser implementada – e que nenhuma criança e adolescente seja privada do convívio com o outro, em especial com os pares de sua geração, afinal como se cantava na Escolinha do Professor Raimundo: “É na escola que a gente aprende a contar, a criar e a crescer; é na escola que nasce o desejo, de pensar e de tudo saber; é na escola que tudo começa, lá se aprende a viver. Na escola é que a gente entende o sentido de ser... Vamos à escola... lá se aprende a viver!”.

Gisele A. Bovolenta é assistente social e professora na Universidade Federal de São Paulo.

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