Na semana passada, Tóquio enfrentou uma forte ventania. Para terem uma ideia, os noticiários falaram de ventos com mais de 20 m/s – coisa que faz até os gordinhos como eu se desequilibrarem nas ruas. E, de fato, não foi brincadeira caminhar. Mas, felizmente, a tal ventania “Popó” não chegou a nocautear-me; de modo que pude, na ocasião, completar o meu trajeto (ainda que despenteado).
E, enquanto caminhava como se fosse um bêbado, veio-me à mente uma canção lá dos idos anos noventa – “Vento, ventania”, composta pelo grupo brasileiro “Biquíni Cavadão”. Morando em Manaus na época, eu adorava a letra dessa canção, principalmente o trecho que dizia: “Vento, ventania/ me leve pra qualquer lugar/ me leve pra qualquer canto do mundo/ Ásia, Europa, América...”.
Pois bem, de tanto repetir a canção-oração, acabei tendo o desejo realizado, e a ventania que eu pedia chegou em 2001, na forma de uma bolsa de estudos para cursar o Mestrado na Terra do Sol Nascente. O resultado dessa odisseia? Em 2024, completo 23 anos de Japão, radicado no país e rodeado por minha família.
Não, senhoras e senhores: não vou bancar aqui o hipócrita nacionalista. Porque, sim, sempre desejei sair de Manaus... para nunca mais voltar – ou no máximo para uma breve visita. Sei que a palavra “nunca” é forte, e não conhecemos o futuro, mas desde muito cedo foi este o meu sentimento em relação à terra onde vi pela primeira vez o sol nascer (abrasador, diga-se de passagem!): a certeza de que eu havia nascido em um lugar com o qual eu não conseguia me identificar. Como se a “nave alienígena” que me trouxera houvesse tido uma falha de percurso: largando-me neste planeta azul e no meio de um inferno verde.
Digo isso – que, sei, soa ingrato e chocante – porque sempre me pareceu falsa a ideia de que “pertencemos” a algum lugar. Sempre considerei que a vida só vale a pena se houver andanças – pelo menos até encontrarmos um lugar que possamos chamar de lar. Para mim, foi o Japão. Foi a Ásia da canção do Biquíni Cavadão – e não o lugar onde nasci.
Sei que os patriotas e bairristas vão pirar com este texto. Mas o que escrevo é realmente o que eu sinto. Não sou do tipo de enrolar-me em bandeiras – seja para enganar (no caso dos líderes) ou para ser enganado (no caso dos seguidores). Ora, amor à pátria! Tsc... Dê-lhes uma oportunidade para sair do Brasil, e logo se verá aonde vai parar o patriotismo dessa turma. Pegam o avião na hora e ainda fazem como Carlota Joaquina: batem os sapatos para não levarem consigo nem o pó da terra brasileira.
Agradeço, portanto, à ventania que, há mais de vinte anos, “arrancou-me” do meu berço. Pode ser até mesmo que o Japão ainda não seja o destino final: e que os ventos, continuando fortes, levem-me amanhã para a Europa ou para a América de que fala a canção. Por enquanto, sigo aqui, tranquilo... esperando a nave alienígena regressar.
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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio-correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).
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