Todo ano, o mesmo exercício sagrado de ferir a carne macia dos figos com a faca afiada. Um exercício quase religioso, minucioso, visto que não se pode afundar muito a faca, ou a cruz não se faz, porque a faca atravessa o figo, cortando-o pela metade.
Todo ano, a casa permitindo-se ser perfumada pelo aroma dos figos, para mim, o autêntico aroma do Natal. Todo ano, eu preciso comer figos quando o Natal se aproxima ou morro. Não, não é exagero. Preciso do doce de figos como quem precisa de alguma doçura para sobreviver à aspereza dos dias.
Todo ano, o mesmo ritual, e eu posso mesmo senti-los se aproximando, tal quais os reis à procura de seu Rei, tal qual a humanidade toda à procura de seu Salvador. E eles sempre vêm. Aqueles que já partiram retornam, chamados pelo aroma da cozinha. Talvez nunca tenham verdadeiramente nos deixado, e só precisem de um convite, irrecusável como o do tacho de figos no fogo, para se reaproximarem novamente.
Enquanto sigo em meu exercício de ferir os figos com a santíssima marca da cruz, por um instante me pego pensando em sua vulnerabilidade. Sim, porque é preciso que se permitam ferir para que só depois o açúcar possa penetrar-lhes a carne macia, tornando-os irresistivelmente doces. Ainda é preciso que se submetam ao calor do fogo, a fim de apurar-lhes o saber. E não é assim também conosco?
Viver é estar vulnerável, amar então é um estado de vulnerabilidade absoluta. Só vivem verdadeiramente aqueles que se permitem experimentar dessa aventura incrível que é a existência. Só amam aqueles que se permitem a vulnerabilidade de mostrarem-se ao outro sem máscaras.
O amor é nosso maior estado de vulnerabilidade, haja vista que se fez carne e habitou entre nós. O Altíssimo fez-se a mais vulnerável das criaturas, quando movido por um amor que beira à insanidade, permitiu-se assumir a forma de um choroso recém-nascido.
E também mais tarde, quando já homem feito, mais uma vez entregou-se, vulnerável à vontade de Seu Pai, ao horror da cruz redentora.
Vulnerável, como um cordeiro, aquele menininho cujo nascimento celebramos no Natal, entregou-se: mãos e pés, aos cravos; a cabeça latejando espinhos, o coração batendo uníssono com o do Pai.
Se tem uma lição que os figos e Ele sempre me ensinam é sobre a necessidade de estar vulnerável.
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