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Crônicas de um Sol Nascente

Crônicas de um Sol Nascente - YAKUZA

Já há alguns anos, não muito longe de minha residência, existe uma célula da Yakuza, a temida máfia japonesa. E sabemos disso por dois motivos: primeiro, porque há uma faixa de protesto afixada pelos moradores mais próximos, dizendo algo como: “Somos contra a presença de vocês aqui!”. O segundo motivo é que, sim, vemos os homens tatuados – lembrando que a tatuagem não é algo comumente usado pelo povo japonês – entrando e saindo do referido prédio, todos os dias.

Aterrorizante? Nem tanto. E o motivo é muito simples: eles, os gângsteres, jamais deram qualquer problema à vizinhança. Ao contrário, são até muito pacatos e corteses. Outro dia, quando eu levava o meu filho à creche, um deles saudou-me de modo muito educado; gentileza esta a que, claro, também correspondi (com um frio na espinha, naturalmente).

E aí alguns dirão: “Mas Don Vito Corleone também era um senhor muito simpático...”. Uma afirmativa com a qual concordo, aliás. Pois, sim, pessoas perigosas não têm de ser necessariamente “raivosas”. A bem da verdade, muitas delas são até de um grande equilíbrio emocional.

Não obstante, no caso de meus tatuados vizinhos, perigosos ou não, o fato é que jamais perturbaram a paz do bairro. Devidamente escondidas as tatuagens, aliás, todos poderiam tranquilamente se passar por “cidadãos de bem”. Sem muito esforço até. Porque, ora, diabos: o que é, afinal, um cidadão de bem? Aqueles de aparência e comportamento aceitos pelas convenções (melhor dito, hipocrisias) da sociedade? Ultimamente, para ser muito sincero, tenho temido mais os ditos “cidadãos de bem” do que os denominados “gângsteres”. Pois quando vejo, por exemplo, cidadãos e cidadãs, em nome da família e da religião, irem para a frente de um hospital bradando “uma falsa moralidade” – que somente aumentaria o sofrimento de uma criança violada pelo próprio tio –, só posso concluir que o verdadeiro mal é quem se diz “de bem”.

E, antes que venham acusar-me de estar defendendo mafiosos, sugiro que repensem primeiro o significado da palavra “crime”. Porque, em uma análise fria, somos todos criminosos. Quando deixamos, por exemplo, de proteger uma criança. Ou quando fechamos os olhos para a miséria ao redor e nos calamos diante de uma injustiça. Ou, ainda, quando relevamos os males feitos por nosso candidato favorito...

Aliás, em relação aos criminosos “não-cidadãos-de-bem”, um dado adicional: foi a Yakuza que, no terremoto de Kobe em 1995, primeiro estendeu a mão às famílias que perderam tudo durante a tragédia. Não o governo. Não “os homens e as mulheres de bem”. Repito: a resposta mais rápida na tragédia foi a dos membros da Yakuza – que provaram, ali, não ter a alma tatuada por uma cruel hipocrisia.

 

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, na Espanha e em Portugal, é autor dos livros “Sonhador Sim Senhor!” (2000), “Clandestinos” (2011), “Em Curto Espaço” (2012), “No mínimo, o Infinito” (2013), “Filho da Floresta” (2015), “Trovas escritas no tronco de um bambu” (2018), “Gotas frias de suor” (2018) e “Centelhas” (2019). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

 

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