“Quem me dera ao menos uma vez
Provar que quem tem mais do que precisa ter
Quase sempre se convence que não tem o bastante
Fala demais por não ter nada a dizer
(...)
Quem me dera ao menos uma vez
Como a mais bela tribo
Dos mais belos índios
Não ser atacado por ser inocente”.
(Canção “Índios” – Legião Urbana)
É você quem dá aula de Língua Portuguesa pros sextos anos?, perguntou-me o novo professor de História.
Sou, respondi. Para os sextos A, B, C e D. E enquanto respondia, meus pensamentos me acusavam. Que bobagem teria eu falado a respeito de algum conteúdo da disciplina do meu mais novo colega? Será que teria me confundido com alguma data histórica? Será que teria exagerado na minha explanação e adentrado a um terreno sobre o qual não tenho tanto domínio assim?
Ah... É que eu estava falando sobre o “descobrimento”, e um dos alunos me surpreendeu dizendo que o Brasil não foi descoberto, e sim, conquistado. Achei o máximo e perguntei como ele havia chegado àquela conclusão. Ele disse que a professora de português tinha conversado com eles, e dito que, se já havia gente aqui antes dos colonizadores chegarem, eles não descobriram nada, eles conquistaram.
Ufa... Não falei nenhuma bobagem, então? Não. E rimos.
Confesso que quando criança, duas cenas me aterrorizavam na tevê. A primeira dizia respeito às celebrações de Corpus Christi e suas tradições de encenações da paixão de Cristo. Só de me lembrar daquelas imagens, das tochas acesas iluminando o caminho dos guardas até Jesus, do sofrimento de Jesus, que, àquela época talvez nem compreendesse como hoje o faço. Mas, sobretudo a figura de Jesus, isso mesmo, a figura daquele homem coberto de sangue, carregando aquela cruz, a pele em carne viva, me aterrorizava.
A segunda, eram os filmes, quaisquer que fossem, que mostrassem tribos indígenas. Isso mesmo, eu sentia medo do escuro da floresta, do ar noturno preenchido pelo barulho de tambores, e até mesmo das típicas pinturas de guerra. Na minha cabecinha infantil, ia sempre sobrar uma flecha envenenada para mim.
Hoje, eu tenho pavor é do homem branco. Tenho pavor e asco e revolta, que se avolumaram ainda mais dentro de mim depois de assistir às cenas mais estarrecedoras que já vi na vida. E não, elas não se referiam ao Corpus Christi, nem tampouco a pinturas de guerra.
As cenas que fizeram meus olhos encherem-se de lágrimas eram do meu povo, do nosso povo originário, os yanomamis. Não, eles não usavam suas lindas pinturas corporais de guerra, não havia forças para isso. O que lhes cobria o corpo era uma fina camada de pele, quase que fundida aos ossos.
Os verdadeiros donos dessa terra, como argumentara com os alunos dos sextos anos, guerreiros valiosos transmutados em figuras esqueléticas.
Quando criança eu estivera errada, nunca, nunca devia ter temido os índios, mas sim os homens brancos. Os gananciosos homens brancos e sua sede insaciável por riqueza.
Hoje, adulta, temo principalmente os governos que validam e apóiam esses homens, porque compartilham de suas ambições.
O que foi feito do povo yanomami foi um genocídio. Os homens que os assassinaram não usavam pinturas de guerra, mas o camuflado e as cores que usurparam da minha bandeira. Em sua maioria, afirmando-se cidadãos de bem, homens de família, tementes a Deus.
Mas a que Deus eles servem, afinal?
Aqueles que elegeram o governo que financiou essa desgraça têm sangue indígena em suas mãos.
Eu vi Cristo na figura esquelética de uma índia, repetida muitas e muitas vezes nos noticiários, talvez por conta do chocante estado em que se encontrava. Soube depois, que ela falecera.
Cristo, depois de três dias, ressuscitou. Será que aquela anciã também vai?
Gosto de pensar que agora, liberta do sofrimento que lhe foi imposto, seu espírito está livre na floresta, está no cheiro da terra úmida, no barulho do vento nas copas das árvores mais frondosas, e, sobretudo na força das futuras gerações, a quem, espero, apesar de não ser o suficiente para reparar o horror de todos os danos causados, respeitemos e honremos.
Termino esse texto, novamente com os olhos marejados, com a alma inquieta, e com um profundo desejo, embora quase que inválido, de pedir-lhes perdão.
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