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Crônicas de um Sol Nascente

A caverna do dragão

No início de maio, tivemos no Japão o feriadão conhecido como Golden Week – que, geralmente é de três ou quatro dias, mas que, neste ano, devido a uma abençoada combinação de datas, correspondeu a uma semana inteira. De modo que aproveitei os dias adicionais de folga para viajar com a minha família. E, para celebrar essa merecida e rara chance de descanso, o lugar por nós escolhido foi a bela ilha de Enoshima, localizada na Prefeitura de Kanagawa – mais ou menos duas horas de trem partindo de Saitama, onde resido. Um paraíso à porta, digamos assim.

Paraíso este que tentamos aproveitar ao máximo. No primeiro dia na ilha, fomos a um aquário muito bacana (o Enoshima Aquarium) – com direito a um show de golfinhos que encantou o Endi, claro, mas também esse velho escriba (foi a primeira vez que vi um desses e achei “da hora”, como dizem por aí). E, no segundo dia, fomos visitar as famosas cavernas (ou grutas) de Enoshima – que são duas, a saber: Ryuren no Kane e Benten Maru.

E essas cavernas são um espetáculo realmente. Por exemplo, já na entrada de uma delas, podemos ver gravado em uma pedra um belo poema de Akiko Yosano (1878-1942), que foi também uma das pioneiras do feminismo no Japão. Infelizmente, do poema em questão, somente tenho essa tradução em inglês: “Wind from the sea/ The shimmering candle light/ A drop spread, the cave of Enoshima”. Algo como: “O vento do mar/ A cintilante luz das velas/ Uma gota que se propaga, a gruta de Enoshima”. E perdoem-me se a tradução não é exata, mas o espírito do texto, creio, está presente aí. Uma aula de literatura e paz, resumindo, já na entrada da caverna.

E, como se um poema de Akiko Yosano não fosse suficiente, ao continuar a jornada pelo interior das cavernas (ou grutas), o visitante depara-se com um dragão (artificial, logicamente) e uma lenda de arrepiar os cabelos (principalmente para quem é pai, como eu). Trata-se da Lenda de Gozuryu e Benzaiten. A história, relatada pelo monge budista Kokei no ano de 1047, é basicamente assim: na antiguidade, o vilarejo de Koshigoe, conectado à ilha de Enoshima, teria sido sacudido por violentos e sucessivos terremotos – sendo o responsável pela bagunça um dragão de cinco cabeças, que é o tal Gozuryu da história. Para acalmar a fúria do monstro – e aí vem a parte triste da história – eram oferecidas em sacrifício as crianças do vilarejo. Foi quando a deusa Benzaiten (que comanda as águas, a música e o conhecimento) desceu dos céus para ajudar o vilarejo. Pois bem... ao ver a deusa, o dragão apaixonou-se imediatamente, pedindo-a em casamento. A deusa aceitou encarar o dragão como marido, mas desde que ele se comprometesse a proteger o vilarejo após as bodas. Uma linda história de amor, não acham? Eu achei até melhor que a do Titanic...

Já o meu pequeno, porém, ignorando os detalhes da lenda, ficou amigo do dragão. Pediu-me até para que levássemos o Gozuryu para casa, perguntando o que o animalzinho comia. Preferi não explicar.

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EDWEINE LOUREIRO nasceu em Manaus (Amazonas-Brasil) em 20 de setembro de 1975. É advogado e professor de idiomas, residente no Japão desde 2001. Premiado em mais de quatrocentos concursos literários no Brasil, no Japão, na Espanha e em Portugal. Em 2022, teve dois livros premiados no Concurso Internacional da União Brasileira de Escritores-RJ, recebendo o Prêmio João do Rio (para “Livro de Crônicas”) e o Prêmio Luiz Otávio (para “Livro de Trovas”). Foi um dos cronistas escolhidos para compor o livro didático “Se Liga na Língua - 8º Ano” da Editora Moderna (2024). É sócio correspondente no Japão da Associação de Escritores de Bragança Paulista (Ases).

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