Enquanto caminho, observo. E a observação quase sempre torna meu caminhar mais bonito e menos penoso. Se não, me faz refletir, e isso é sempre benéfico, mesmo que minhas pupilas cansadas do mal se deparem com ele vez por outra e meu coração se precipite dentro do meu peito.
Observar é necessário!
Observar sempre foi, desde pequena, meu exercício favorito. O único “problema” por assim dizer é que sofro de poesia associada à miopia e isso, literalmente, distorce minha visão das coisas e das pessoas. Onde muitos veem, por exemplo, uma árvore no seu exercício rotineiro de ser árvore, eu vejo Deus!
Vejo Deus no cuidado exaustivo da natureza em fazê-la árvore e árvore exuberante, vejo Deus nas matizes de cores que a tornam única e unicamente bela, vejo Deus na espera dolorosa por suas delicadas flores, no exagero das suas flores, que à ação do vento, onde também enxergo Deus, despetalam-se, agraciando o asfalto com seu colorido e sua leveza.
E como amo essa época em que os ipês, genuínos arautos do Altíssimo, ferem nossa vista, cansada pelo descaso com que lidamos com o extraordinário, relembrando-nos dEle e das esperas necessárias.
Sim, porque o que mais admiro no ipê é sua serenidade em esperar. Esperar o momento certo, oportuno em que, como num parto doloroso, suas flores deixarão seu interior, onde por essência, sempre foram flores, para em seu exterior, presentear nossos dias com sua beleza exuberante.
O ipê, pasmem, me ensina muitas lições. Não, não seria leviana a ponto de desejar ser bela como ele, mas confesso, invejo sua serenidade e aceitação, sua despretensão em ser ipê, sua satisfação em ser o que é.
Repare, o ipê é o que é e isso em plenitude. Talvez o Eterno queira, por meio dele, nos dizer bem mansinho que devemos ser o que somos e em plenitude, vivendo a vida que Ele mesmo nos propor viver, com a serenidade do ipê, suportando silenciosamente a espera dolorosa das flores, agraciando nosso próximo com uma presença cheia de amor e beleza.
E essa beleza sobre a qual falo, tal qual a do ipê, vem de dentro, forjada nas profundezas de nossa alma, para só depois, externar-se.
Grata sou a Ele pela primavera, mas muito mais, pela espera da primavera, porque é sempre nos intervalos do vir a ser que me encontro, e assim, encontro-me com Ele!
Viva os ipês!
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